25 fevereiro, 2007

Ode a Damásio e o conceito de DEUS

Noto a seguinte citação do filósofo francês do séc. XVII Mallebranche, no livro do neurocientista português António Damásio “Feeling of what happens: body and emotion in the making of consciousness” (Harcourt Brace, 1999), publicado no Brasil com o título “O mistério da Consciência: do corpo e das emoções ao conhecimento de si" (Companhia das Letras, 2000):

É através da luz e de uma ideia clara que a mente vê a essência das coisas, números, e extensões. É através de uma ideia vaga ou através do sentimento que a mente julga a existência de criaturas e que conhece a sua própria existência.


Leia mais aqui.


8 comentários:

via gene disse...

João!

Depois de um tempo lendo a opinião e o debate entre físicos, fiquei animada com sua contribuição sob a ótica biológica da neurociência (nada contra a visão "física" - mas como uma apaixonada pela Biologia não deixo de me encantar com a natureza do cérebro humano).
abraços,
ana claudia

Juliana disse...

Olá João, excelente texto.
Aproveito para indicar uma palestra fantástica de Daniel Dennet que faz uma crítica inteligentíssima ao livro do pastor Rick Warren (The purpose-driven life) e ao design inteligente.

http://www.ted.com/tedtalks/tedtalksplayer.cfm?key=d_dennett

Osame Kinouchi disse...

Boa descrição da experiência religiosa, João! Mais que um ato cognitivo, é uma experiência de apaixonamento amoroso.

João Alexandrino disse...

É Ana, o debate estava a ficar mesmo muito físico...

Juliana, vi a palestra do Dennet e fiquei muito curioso com o seu livro. Concordo com a proposta de que a história factual das religiões seja ensinada às crianças. Obrigado pela sugestão!

Osame, o problema da paixão amorosa é que cria dependência.

Abs.

Maria Guimarães disse...

é estranho, essa visão neurocientífica me dá um nó na cabeça. acho que começo a entender, mas aí no fundo não entendo como emoção/percepção (de si ou do mundo) levam à existência de um deus. vou ter que ler mais, pensar mais...
será um neuromecanismo que me impede dessa metacompreensão?

João Alexandrino disse...

Maria: a emoção levaria à consciência de DEUS, que levaria à sua existência.

Se imaginares a vida numa sociedade de transição do bando para a tribo ou o 'régulado', em que pela primeira vez estranhos convivem lado a lado, sem lei que não seja a da família, talvez imagines as emoções por que passarias nesse tipo de ambiente. Imagina uma vida talvez não muito diferente de guerras recentes, étnicas e/ou políticas e/ou religiosas de que ouvimos ecos no Ruanda, Somália, Serra Leoa etc. O sentimento de DEUS adviria da contraposição de emoções negativas com emoções positivas, e de uma necessidade/vontade de acreditar e de promover uma vida que dê origem a emoções e sentimentos "positivos". Não se pode conhecer DEUS se não se conhece o DIABO. Neste sentido, quase que se poderia pensar na consciência de DEUS como um exercício de livre-arbítrio (vontade), embora me pareça mais verossímil pensá-lo como um mecanismo homeóstatico, num âmbito social, que promove uma maior sobrevivência coletiva. Em termos evolutivos, seria um exemplo claro de seleção de grupo, em que a seleção atua sobre um sujeito coletivo, com propriedades emergentes distintas das individuais. Isto é, uma sociedade com maior coesão social teria mais facilidade em unir-se e organizar-se para combater uma outra, ou simplesmente gerar tecnologia. A religião e o estado de direito seriam mecanismos reguladores de controle social, internalizados pela seleção natural de grupo.

Agora, como tb sugere Diamond, é muito natural que estes mecanismos de controle tenham surgido associados à tomada de poder dos mais aptos, por serem mais fortes ou inteligentes. O(s) inventor(es) de um sistema de justificação de perpetuação de poder teriam com certeza, numa faase inicial, experimentado um grande aumento da sua aptidão darwiniana.

Maria Guimarães disse...

mas então a origem da religião vem de uma necessidade de manipular as massas, e é de certa incorporada pelo cérebro por ser adaptativa?

Maria Guimarães disse...

Olha o que diz o wilson: “... Sem ciência [antes que ela existisse] tinha que haver religião, par aexplicar o lugar do homem no universo. Nascido de sonhos, suas imagens eram adoradas na cultura por xamãs e padres. Os deuses fizeram o homem. Aqueles que viviam com Natureza em torno deram lugar aos deuses em montanhas sagradas, em lugares distantes e nos céus. Em algum lugar e de alguma forma há muito tempo, esses humanóides divinos haviam criado o mundo, e agora governavam o homem. Os humanos, na evolução de sua auto-imagem, ergueram-se acima da Natureza para seguir os deuses como crianças e servos. Tribos firmemente guiadas por seus deuses pessoais eram unidas e fortes. Elas derrotaram tribos adversárias e seus falsos deuses. Eles também subjugaram a Natureza, apagando a maior parte dela no processo. Seu destino, eles acreditavam, não era deste mundo. Eles se viam como imortais, não menos que semi-deuses.”
Mas depois a ciência foi aos poucos alterando a auto-imagem do homem e sua relação com a natureza.

tem a ver?