28 fevereiro, 2007

Muitos credos, uma só busca

A discussão deste mês mostrou que quando o assunto é ciência e religião, há uma tendência forte de se polarizar e escolher campos. Mas não precisa ser assim. Para garantir a sobrevivência deste planeta - e a nossa própria - o jeito é deixar as diferenças de lado.

Leia mais no Ciência e idéias.

21 comentários:

João Alexandrino disse...

Maria, excelente forma de terminar (?) o debate deste mês!

Maria Guimarães disse...

obrigada! espero não ter a última palavra, que os outros ainda tenham fôlego para conversar aqui nestes comentários.

via gene disse...

Também me identifiquei com o seu excelente texto! Achei mesmo que estávamos todos preocupados em apontar quem é quem na "busca pela verdade" que deixamos de lado "o apocalipse" que pode vir a se concretizar antes de sabermos quem ganhou: ciência ou religião (só provocação...). Outra coisa que começou a se esboçar mas depois se dispersou na discussão do mês foi a questão da religião como objeto de investigação "científica". A categoria Teologia está (ou ao menos esteve) inclusive contemplada com um projeto temático da FAPESP, e isso ilustra que religião e ciência se cruzam (sem alusão às cruzadas, obviamente) nem que seja a(s) religião(ões) como tema e a ciência como condutora a um mundo mais esclarecido (mas nem por isso melhor, como alerta a MAria: estamos CHEIOS de informação, mas nem tanto de reação...).
abraços,
ana claudia

Osame Kinouchi disse...

Maria, esse tom conciliatorio não seria admitido pelo Dawkins ou pelos fundamentalistas. Acho que isso foi a discussão original. Se Dawkins acha que quem cria os filhos numa religiao é igual a quem faz abuso sexual de crianças, então não tem jeito. Ao adotar uma atitude tolerante, voce está "polarizando" em relação a Dawkins...

Maria Guimarães disse...

tem toda razão ana claudia, faltou esse lado da discussão. pena, porque não sei nada sobre o assunto e gostaria de aprender um pouco!

pois é osame... eu e dawkins discordamos e não é de hoje, não é só nisso. claro que ele não sabe disso, e se soubesse não estaria nem aí. afinal, quem ganha fortunas por ter seguidores de suas idéias não sou eu!

João Carlos disse...

É aqui que eu, na minha posição de religioso, fico preocupado...

Porque, se alguma coisa eu aprendi, é que Mamãe Natureza não vai à loucura; vai à forra.

Se "a imagem e semelhança do Criador" não começar a tratar nossa "Casa" melhor... bom... dizem que já houve um tal de "dilúvio"... Com certeza, já houve uma "Era do Gelo" (e, pelo que eu sei, nossos ancestrais sobreviveram por pouco).

E não vai ser com orações ou Ebós que vai se resolver o problema...

Osame Kinouchi disse...

Bom, acho que o tema ficou muito amplo. O melhor teria sido delimitar, por exemplo, "neurociencias e religião", ou "neurotheologia", ou qualquer tópico especifico assim.
Maria, qual vai ser o proximo tema? A representação social do cientista? Ou seja, como a figura do cientista aparece em filmes, livros, desenhos animados e histórias em quadrinhos?

Juliana disse...

Eu sei que o Roda iniciará outro tema em março, mas enquanto ele não vem, indico uma leitura rápida no The Loom (blog do Carls Zimmer).
Zimmer comenta o alardeado documentário, O sepulcro esquecido de Jesus. Aparentemente o programa demonstrará, com base em provas científicas, a quem pertenceu a recém-descoberta tumba.
E segue mais uma produção pseudo-científica na cola do "Código Da Vinci". :o)

http://scienceblogs.com/loom/2007/02/27/jesus_and_journalists.php

Osame Kinouchi disse...

Juliana, fiz um comentario sobre a tumba no SEMCIENCIA. Caso vc nao tenha visto:
http://comciencias.blogspot.com/2007/03/tumba-de-cameron.html

Juliana disse...

Oi Osame

Ainda não tinha visto. Obrigada! :o)

Osame Kinouchi disse...

Maria,
Qual vai ser o tema deste mês???

O.

Juliana disse...

Olá

Como aind não tenho Blog e queria passar a dica adiante, resolvi deixar esse comentário aos assíduos do "Roda".

http://www.iea.usp.br/iea/evoluciensociais.html

Novo Ciclo de Palestras no Inst. de Estudos Avançados da USP.

O diálogo entre a teoria da evolução e as ciências sociais.

AOs debates serão transmitidos ao vivo no link acima.

até mais

Osame Kinouchi disse...

Juliana, e o que vc está esperando para iniciar o blog?
Maria, qual vai ser mesmo o tema deste mês?

BB disse...

Daniel, clicando no seu link no sidebar, nao consigo mais entrar no It´s different. O que está acontecendo?

Vagner Jeger Limeira de Castro disse...

Gostaria de aproveitar a pertinência temática para divulgar um texto publicado originalmemte
em: http://blogoeublogastu.blogspot.com/
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Valores morais: são bons por que são religiosos ou são religiosos por que são bons?

Os mais céticos defendem o fim das religiões tendo em vista uma vida mais livre, mais crítica, menos "moralista", menos dogmática, menos calcada em princípios de fé e mais de acordo com o discurso científico. A esmagadora maioria da população mundial se diz espiritualizada de algum modo, no sentido religioso da palavra, e a humanidade chegou onde chegou. Não estaria na hora de mudar? Os mais crentes por sua vez contra argumentam que se o ser humano já faz as barbaridades que faz na presença de Deus, sem ele seria muito pior.

Aqueles alegam que as religiões perseguem o desenvolvimento da ciência. No século XVII, Galileu bateu de frente com a inquisição ao defender veementemente que o sol era o centro do universo e não a terra. Quase foi queimado vivo por isso. Mais recentemente (1978), com o sucesso da fertilização in vitro, ativistas religiosos tentaram impedir que as novas técnicas se popularizassem. Mais tarde, com o surgimento da AIDS os mesmos ativistas diziam que bastava ser fiel para evitar a doença e chegaram mesmo a pronunciar que o vírus HIV teria a capacidade de tunelar o látex da camisinha. Com a clonagem e estudos com células tronco, os religiosos acusam os cientistas de brincarem de Deus. Os religiosos sustentam que estes são casos isolados e que não se pode generalizar. Em contrapartida a ciência é acusada de manipular informações para iludir as pessoas a exemplo do que ocorreu com a pesquisa do sul-coreano Woo-Suk Hwang sobre células tronco embrionárias humanas, entre outros casos.

Para uns é difícil aceitar um Deus que se preocupe com as nossas necessidades pessoais e que recompense ou castigue o objeto de sua criação de acordo com o seu comportamento. Para outros, isto pode ser uma motivação a mais para praticar o bem.

Alguém que acredita em Deus poderá dizer: ah... entãos se Deus não existe podemos sair por aí matando que não faz diferença alguma? Para os não crentes o raciocínio é justamente o oposto. Uma vez que existe apenas uma vida, é preciso vivê-la da melhor forma possível, e matar não faz parte das prioridades. A admiração pelo mundo natural, pelas belezas que o cosmos revela à luz da razão não vai te levar a querer praticar o mal. Muito pelo contrário. Os que acreditam cegamente na existência de um paraíso após a morte, estes sim são potencialmente perigosos. Já alguém que não acredita em Deus poderá questionar: quer dizer que o universo é complexo demais para apenas existir mas precisa ser criado por um Deus que apenas existe? Da mesma forma que vocês simplesmente acreditam na ciência, nós acreditamos em um Deus, responde o religioso. É apenas uma questão de fé.

Os providos de fé afirmam que as religiões estão intimamente ligadas à formação de valores morais. Que as religiões querem um ser humano mais pleno, filho de Deus. Que mal a nisto? Os desprovidos retrucam dizendo que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Valores morais estariam muito mais associados à dicotomia do bem e do mal, ou seja, mais a uma questão filosófica do que religiosa propriamente dita.

E por aí vai. Discussões a parte, o fato é que a ciência não abala as convicções dos religiosos nem a fé toca o coração dos não-religiosos. É impossível uma uniformidade de pensamentos. Todos são felizes da sua maneira. Cada um possue os seus dogmas, sejam eles científicos, religiosos ou ambos simultaneamente. Não devemos ironizar a opinião alheia. Há espaço para todos. Ou nos acostumamos a conviver com as diferenças ou a humanidade não terá futuro.

Vagner Jeger

Kynismós! disse...

"Todo conhecimento definido - eu o afirmaria - pertence à ciência; e todo dogma quanto ao que ultrapassa o conhecimento definido, pertence à teologia. Mas entre a teologia e a ciência existe uma Terra de Niguém, exposta aos ataques de ambos os campos: essa Terra de Ninguém é a filosofia."
Bertrand Russell

Maria Guimarães disse...

eu gostaria muito de dar razão ao bertrand russell. pena que tem tanto dogma infiltrado na ciência...

vagner, obrigada por trazer mais uma perspectiva!

Kynismós! disse...

Concordo Maria, infiltrado na ciência, mas a ciência não é constituída de dogmas.
Talvez cientistas de verdade pensem assim, quem possui apenas um emprego, não.

OK disse...

Meio fora de hora, mas para registro: Hélio Schartzman comenta a delusão de Dawkins na Folha:

http://www1.folha.uol.com.br/folha/pensata/ult510u277.shtml

Lucia Malla disse...

Maria, seu texto fechou com chave de ouro a discussão do mês de fevereiro (que eu só hoje li tudo, q vergonha...) e já puxou a sardinha pros meses seguintes... Eita eficiência, sô! :)

Vagner, seu comentário é lindo! Mostra exatamente a dicotomia q vivemos hoje, e que parece ser insolúvel.

Mário disse...

Não há incompatibilidade entre ciência e religião, entre fé e razão. Não é uma questão de ou uma ou a outra. Segue entrevista com Francis Collins:

Entrevista: Francis Collins

Ciência não exclui Deus

O biólogo que desvendou o genoma humano
explica por que é possível aceitar as teorias de
Darwin e ao mesmo tempo manter a fé religiosa

Gabriela Carelli

O biólogo americano Francis Collins é um dos cientistas mais notáveis da atualidade.
Diretor do Projeto Genoma, bancado pelo governo americano, foi um dos responsáveis
por um feito espetacular da ciência moderna: o mapeamento do DNA humano, em
2001. Desde então, tornou-se o cientista que mais rastreou genes com vistas ao
tratamento de doenças em todo o mundo. Collins também é conhecido por pertencer a
uma estirpe rara, a dos cientistas cujo compromisso com a investigação do mundo
natural não impede a profissão da fé religiosa. Alvo de críticas de seus colegas, cuja
maioria nega a existência de Deus, Collins decidiu reagir. Ele lançou há pouco nos
Estados Unidos o livro The Language of God (A Linguagem de Deus). Nas 300 páginas
da obra, o biólogo conta como deixou de ser ateu para se tornar cristão aos 27 anos e
narra as dificuldades que enfrentou no meio acadêmico ao revelar sua fé. "As
sociedades precisam tanto da ciência como da religião. Elas não são incompatíveis, mas
complementares", explica o cientista. A seguir, a entrevista de Collins a VEJA:

Veja – No livro A Linguagem de Deus, o senhor conta que era um "ateu insolente" e,
depois, se converteu ao cristianismo. O que o fez mudar suas convicções?

Francis Collins – Houve um período em minha vida em que era conveniente não
acreditar em Deus. Eu era jovem, e a física, a química e a matemática pareciam ter todas
as respostas para os mistérios da vida. Reduzir tudo a equações era uma forma de
exercer total controle sobre meu mundo. Percebi que a ciência não substitui a religião
quando ingressei na faculdade de medicina. Vi pessoas sofrendo de males terríveis.
Uma delas, depois de me contar sobre sua fé e como conseguia forças para lutar contra a
doença, perguntou-me em que eu acreditava. Disse a ela que não acreditava em nada.
Pareceu-me uma resposta vaga, uma frase feita de um cientista ingênuo que se achava
capaz de tirar conclusões sobre um assunto tão profundo e negar a evidência de que
existe algo maior do que equações. Eu tinha 27 anos. Não passava de um rapaz
insolente. Estava negando a possibilidade de haver algo capaz de explicar questões para
as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo e fazem as pessoas
superar desafios.

Veja – Que questões são essas para as quais não encontramos respostas?
Collins – Falo de questões filosóficas que transcendem a ciência, que fazem parte da
existência humana. Os cientistas que se dizem ateus têm uma visão empobrecida sobre
perguntas que todos nós, seres humanos, nos fazemos todos os dias. "O que acontece
depois da morte?" ou "Qual é o motivo de eu estar aqui?". Não é certo negar aos seres
humanos o direito de acreditar que a vida não é um simples episódio da natureza,
explicado cientificamente e sem um sentido maior. Esse lado filosófico da fé, na minha
opinião, é uma das facetas mais importantes da religião. A busca por Deus sempre
esteve presente na história e foi necessária para o progresso. Civilizações que tentaram
suprimir a fé e justificar a vida exclusivamente por meio da ciência – como,
recentemente, a União Soviética de Stalin e a China de Mao – falharam. Precisamos da
ciência para entender o mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições
humanas. Mas a ciência deve permanecer em silêncio nos assuntos espirituais.

Veja – A maioria dos cientistas argumenta que a crença em Deus é irracional e
incompatível com as descobertas científicas. O zoólogo Richard Dawkins, com quem o
senhor trava um embate filosófico sobre o tema, diz que a religião é a válvula de escape
do homem, o vírus da mente. Como o senhor responde a isso?

Collins – Essa perspectiva de Dawkins é cheia de presunção. Eu acredito que o ateísmo
é a mais irracional das escolhas. Os cientistas ateus, que acreditam apenas na teoria da
evolução e negam todo o resto, sofrem de excesso de confiança. Na visão desses
cientistas, hoje adquirimos tanta sabedoria a respeito da evolução e de como a vida se
formou que simplesmente não precisamos mais de Deus. O que deve ficar claro é que as
sociedades necessitam tanto da religião como da ciência. Elas não são incompatíveis,
mas sim complementares. A ciência investiga o mundo natural. Deus pertence a outra
esfera. Deus está fora do mundo natural. Usar as ferramentas da ciência para discutir
religião é uma atitude imprópria e equivocada. No ano passado foram lançados vários
livros de cientistas renomados, como Dawkins, Daniel Dennett e Sam Harris, que
atacam a religião sem nenhum propósito. É uma ofensa àqueles que têm fé e respeitam a
ciência. Em vez de blasfemarem, esses cientistas deveriam trabalhar para elucidar os
mistérios que ainda existem. É o que nos cabe.

Veja – O senhor afirma que as sociedades precisam da religião, mas como justificar as
barbaridades cometidas em nome de Deus através da história?

Collins – Apesar de tudo o que já aconteceu, coisas maravilhosas foram feitas em nome
da religião. Pense em Madre Teresa de Calcutá ou em William Wilberforce, o cristão
inglês que passou a vida lutando contra a escravatura. O problema é que a água pura da
fé religiosa circula nas veias defeituosas e enferrujadas dos seres humanos, o que às
vezes a torna turva. Isso não significa que os princípios estejam errados, apenas que
determinadas pessoas usam esses princípios de forma inadequada para justificar suas
ações. A religião é um veículo da fé – essa, sim, imprescindível para a humanidade.

Veja – O senhor diz que a ciência e a religião convergem, mas devem ser tratadas
separadamente. Como vê o movimento do "design inteligente", em que cientistas usam
a religião para explicar fatos da natureza que permanecem um mistério para a ciência?

Collins – Essa abordagem é um grande erro. Os cientistas não podem cair na armadilha
a que chamo de "lacuna divina". Lamento que o movimento do design inteligente tenha
caído nessa cilada ao usar o argumento de que a evolução não explica estruturas tão
complicadas como as células ou o olho humano. É dever de todos os cientistas,
inclusive dos que têm fé, tentar encontrar explicações racionais para tudo o que existe.
Todos os sistemas complexos citados pelo design inteligente – o mais citado é o
"bacterial flagellum", um pequeno motor externo que permite à bactéria se mover nos
líquidos – são um conjunto de trinta proteínas. Podemos juntar artificialmente essas
trinta proteínas, que nada vai acontecer. Isso porque esses mecanismos se formaram
gradualmente através do recrutamento de outros componentes. No curso de longos
períodos de tempo, as máquinas moleculares se desenvolveram por meio do processo
que Darwin vislumbrou, ou seja, a evolução.

Veja – Qual a sua leitura da Bíblia?
Collins – Santo Agostinho, no ano 400, alertou para o perigo de se achar que a
interpretação que cada um de nós dá à Bíblia é a única correta, mas a advertência foi
logo esquecida. Agostinho já dizia que não há como saber exatamente o que significam
os seis dias da criação. Um exemplo de que uma interpretação unilateral da Bíblia é
equivocada é que há duas histórias sobre a criação no livro do Gênesis 1 e 2 – e elas são
discordantes. Isso deixa claro que esses textos não foram concebidos como um livro
científico, mas para nos ensinar sobre a natureza divina e nossa relação com Ele. Muitas
pessoas que crêem em Deus foram levadas a acreditar que, se não levarmos ao pé da
letra todas as passagens da Bíblia, perderemos nossa fé e deixaremos de acreditar que
Cristo morreu e ressuscitou. Mas ninguém pode afirmar que a Terra tem menos de 10 000 anos a não ser que se rejeitem todas as descobertas fundamentais da geologia, da cosmologia, da física, da química e da biologia.

Veja – O senhor acredita na Ressurreição?
Collins – Sim. Também acredito na Virgem Maria e em milagres.
Veja – Não é uma contradição que um cientista acredite em dogmas e milagres?
Collins – A questão dos milagres está relacionada à forma como se acredita em Deus.
Se uma pessoa crê e reconhece que Ele estabeleceu as leis da natureza e está pelo menos em parte fora dessa natureza, então é totalmente aceitável que esse Deus seja capaz de intervir no mundo natural. Isso pode aparecer como um milagre, que seria uma
suspensão temporária ou um adiamento das leis que Deus criou. Eu não acredito que
Deus faça isso com freqüência – nunca testemunhei algo que possa classificar como um
milagre. Se Deus quis mandar uma mensagem para este mundo na figura de seu filho,
por meio da Ressurreição e da Virgem Maria, e a isso chamam milagre, não vejo motivo
para colocar esses dogmas como um desafio para a ciência. Quem é cristão acredita
nesses dogmas – ou então não é cristão. Faz parte do jogo.
Veja – É possível acreditar nas teorias de Darwin e em Deus ao mesmo tempo?

Collins – Com certeza. Se no começo dos tempos Deus escolheu usar o mecanismo da
evolução para criar a diversidade de vida que existe no planeta, para produzir criaturas
que à sua imagem tenham livre-arbítrio, alma e capacidade de discernir entre o bem e o
mal, quem somos nós para dizer que ele não deveria ter criado o mundo dessa forma?
Veja – Alguns cientistas afirmam que a religião e certas características ligadas à
crença em Deus, como o altruísmo, são ferramentas inerentes ao ser humano para
garantir a evolução e a sobrevivência. O senhor concorda?
Collins – Esses argumentos podem parecer plausíveis, mas não há provas de que o
altruísmo seja uma característica do ser humano que permite sua sobrevivência e seu
progresso, como sugerem os evolucionistas. Eles querem justificar tudo por meio da
ciência, e isso acaba sendo usado para difundir o ateísmo.
Veja – Mas o altruísmo é visto hoje pela genética do comportamento como uma
característica herdada pelos genes, assim como a inteligência. O senhor, como
geneticista, discorda da genética comportamental?
Collins – Há muitas teorias interessantes nessa área, mas são insuficientes para explicar
os nobres atos altruístas que admiramos. O recado da evolução para cada um de nós é
propagar o nosso DNA e tudo o que está contido nele. É a nossa missão no planeta. Mas
não é assim, de forma tão lógica, que entendo o mundo, muito menos o altruísmo e a
religiosidade. Penso em Oskar Schindler, que se sacrificou por um longo período para
salvar judeus, e não pessoas de sua própria fé. Por que coisas desse tipo acontecem? Se
estou caminhando à beira de um rio, vejo uma pessoa se afogar e decido ajudá-la
mesmo pondo em risco a minha vida, de onde vem esse impulso? Nada na teoria da
evolução pode explicar a noção de certo e errado, a moral, que parece ser exclusiva da
espécie humana.
Veja – Muitas religiões são contrárias ao uso de técnicas científicas que poderiam
salvar vidas, como a do uso de células-tronco. Como o senhor se posiciona nessa
polêmica?
Collins – Temos de ser sensíveis e respeitar as diferentes religiões no que diz respeito
aos avanços científicos. Mas interromper as pesquisas científicas ou impedir que uma
pessoa com uma doença terrível tenha uma vida melhor só porque a religião não aceita
determinado tratamento é antiético. Por outro lado, existem fronteiras que a ciência não
deve transpor, como a clonagem humana, que além de tudo não serviria para nada a não
ser para nos repugnar. Cada caso tem de ser avaliado isoladamente.
Veja – Os geneticistas são muitas vezes acusados de brincar de Deus. Como o senhor
encara essas críticas?
Collins – Se todos brincássemos de Deus como Deus gostaria, com esperança e amor,
ninguém se abateria muito com comentários do gênero. Mas somos seres humanos e
temos propensão ao egoísmo e aos julgamentos equivocados. O importante é não reagir
de forma exagerada à perspectiva de que as pessoas possam vir a fazer mau uso das
descobertas da genética, mas sim focar o lado bom dessa "brincadeira". A maior parte
das pesquisas genéticas busca a cura de doenças como câncer, problemas cardíacos,
esquizofrenia. São objetivos louváveis. Para evitar o uso impróprio da ciência, o Projeto
Genoma Humano apóia um programa que visa a preservar a ética nas pesquisas
genéticas e certificar-se de que todas as nossas descobertas beneficiarão as pessoas e a
sociedade.
Veja – O que esperar das pesquisas genéticas no futuro?
Collins – Nos próximos dois ou três anos vamos descobrir os fatores genéticos que
criam a propensão ao câncer, ao diabetes e às doenças cardiovasculares. Isso
possibilitará que as pessoas saibam que provavelmente vão desenvolver esses males e
tomem medidas preventivas contra eles, com a ajuda do médico. Mais à frente, as
descobertas das relações entre o genoma e as doenças farão com que os tratamentos e os
remédios sejam personalizados, tornando-os mais eficientes e com menos efeitos
colaterais.
Veja – O senhor acredita que Deus ouve suas preces e as atende?
Collins – Eu nunca ouvi Deus falar. Algumas pessoas ouviram. Não acredito que rezar
seja um caminho para manipular as intenções de Deus. Rezar é uma forma de entrarmos
em contato com Ele. Nesse processo, aprendemos coisas sobre nós mesmos e sobre
nossas motivações.
Edição 1992 . 24 de janeiro de 2007
Revista Veja.