19 outubro, 2007

Um folgado ou alguém tentando curar o câncer?

Toda vez que eu vejo termos como "representação social", "responsabilidade social", "impacto social" e outras "socializações" eu me arrepio. Não porque a discussão em si seja irrelevante ou inútil, mas porque o rumo da discussão é sempre o que podemos fazer para mudar a sociedade, como se o problema fosse da sociedade, sempre a sociedade. Acho que a questão do espaço social ocupado por um cientista em seu meio passa pela questão de como o cientista influencia seu meio. Passa pela questão da relação entre o cientista e seus clientes, seu mercado consumidor. Readaptando a frase célebre de John Kennedy, não perguntemos o que a sociedade faz dos cientistas e sim o que os cientistas fazem pela sociedade!

Continua aqui.

13 comentários:

João Carlos disse...

Eu me lembro de um artigo do Daniel sobre uma ocasião em que ele "se empolgou" e começou a discorrer sobre sua determinação em ser um pesquisador... (aliás, esta é uma boa ocasião para ressuscitar aquele artigo...)

Mas eu confesso que já tive ímpetos de traduzir, também, o Improbable Research... só que, considerando as condições da pesquisa no Brasil, os Ignobel Prizes não seriam uma boa propaganda...

SM disse...

Sempre admirei muito os profissionais da ciência, mas concordo que sou minoria e que, ainda sendo admiradora, tenho de reconhecer que há no meio científico (não só no brasileiro) os "laranjas-podres" que estão lá a serviço de interesses obscuros (interesses de Estado? x-x).
Enfim, difícil é apontar uma profissão que seja respeitada neste país. É ou não é?
Por aqui quase ninguém leva a profissão a sério e se deixa corromper muito facilmente. E este é um estigma do nosso povo. Talvez o maior mal de nossa sociedade...

Um abraço e bom final de semana!
Simone

Shridhar Jayanthi disse...

Hoje eu ouvi uma frase que eu ouvi zilhões na minha curta vida aqui na gringolândia: "EUA é um lugar bom pra se trabalhar mais Brasil é um lugar melhor pra se viver"... Diabos! Por que é que o Brasil não pode ser um lugar bom pra se trabalhar também? Me recuso a aceitar que trabalho e diversão sejam elementos antagônicos de uma sociedade!

João Carlos disse...

Shridhar:

Depende no que você trabalha... Biólogos, no Brasil, têm um prato cheio (se bem que os bolsos, meio vazios...) Já para um físico, não dá nem para começar a comparar.

Ao fim e ao cabo, eu concordo com o Robert Heinlein: "felicidade é trabalhar longas horas naquilo que você gosta de fazer". Seja no lugar onde for.

Eu também não acho que trabalho e diversão sejam mutuamente excludentes. O problema de se trabalhar no Brasil é a "cultura de colônia" que ainda impera...

Bruno disse...

Nos EUA nao tem folgado?? Aki na Europa a máfia de folgados é bem pior que no Brasil. Aki eles aprenderam a gerar uma ilusao de producao cientifica e com isso obter e controlar fundings...

O cientista também nao é (necessariamente) bitolado ou troxa. Ele olha pro lado e ve que tem o politico ladrao, o folgado mamando no servico publico, o pessoal de consultoria mamando em apresentacoes triviais em PowerPoint, os managers ganhando pra sentar em meetings, outros cientistas produzindo incessamente pseudo-papers obscuros com titulos estranbolicos... e assim por diante. E aí ele também ve que todo esse pessoal está sendo mais recompensado que ele. Nada mais natural que virar um folgado...

Mas é claro, antes de virar um folgado completo, tem que contribuir para o espetaculo da (pseudo-)ciencia. Tem que escrever um punhado de pseudo-papers, participar de algumas conferencias pra fazer amizade e contatos com a máfia existente.

Melhor ainda se ele escrever um "seminal (pseudo-)paper" inaugurando alguma mini-área do conhecimento, e aí entao viver de citacoes, da organizacao de workshops e da edicao de journals pra reverenciar a mini-área, e pra encher o currículo. Melhor ainda se a mini-área se auto-intitular interdisciplinar e conter no nome algo como "cognitive", "semantic", "genetic", ou alguma outra palavra que soe bem...

A sociedade nao financia ciencia de verdade, da mesma forma que ela nao financia arte de verdade, mas sim apenas entretenimento.. A Arte de verdade é perigosa, pois faz o povo pensar ou ver de pontos de vista diferentes. A ciencia de verdade também é perigosa, pois traz conhecimento, tecnologia... Ambos podem desestabilizar o equilibrio de poder na sociedade.

A sociedade quer sim o espetaculo da ciencia, a repeticao simulada do que era ciencia, assim como ela quer a repeticao das mesmas velhas fórmulas em filmes de hollywood. A sociedade quer ver essa repeticao nos jornais, na TV, nos blogs... Quer ver a multiplicacao da formacao de doutores, da demarcacao de mini-areas, do recebimento de premios de merito academico, da publicacao de pseudo-papers...

A sociedade do espetáculo nao se contrapoe às forcas que poderiam desestabiliza-la, mas as absorve e as aprisiona em ambientes simulados. Apareceu alguem que tem potencial pra mostrar que a terra nao é plana? Nao o ponha na fogueira nao! (Isso nao deu certo na idade média) Em vez disso, encha-o de premios de mérito academico, convenca-o passar a vida estudando todos os pseudo-papers sobre geometrias nao-planas e sobre geografia terrestre, deixe-o criar a mini-área interdisciplinar das "Non-Classical Categorical Semantics of Non-planar Terrestrial Geometro-geographies". Dentro dessa mini-área, encha-o de reconhecimento e positive feedback, para que ele se sinta um grande e produtivo cientista. Mas tudo isso, só se a mini-area for obscura o suficiente pra que niguem, nem mesmo o próprio cientista, conclua que a terra nao é plana...

E aí? Como diferenciar o cientista folgado do cientista simulado e do cientista de verdade? Depois de tanta simulacao, como determinar o que é real na ciencia?

Bruno Woltzenlogel Paleo
Simulacrum - Bruno's Webite

Shridhar Jayanthi disse...

Olha folgado tem em todo lugar, mas o índice de folgados é bem menor na minha área porque no final do dia todos os caras tem que conseguir financiamento de algum lugar, que geralmente é da indústria - recursos do governo não são o suficiente aqui. E os que se dedicam a ensinar ao invés da pesquisa são cobrados pelos alunos das escolas, que pagam anuidades gigantes para estudar. Um coro comum no Brasil e que talvez seja corrente na Europa é de que "o mercado é perigoso pra ciência" e essa é que é a falácia que me pega. Pra mim é justamente o contrário. O mercado é quem dá a referência pra ciência que separa o que é ciência do que é simulacão. Sem o mercado, como vc cita, a ciência é uma masturbacão mental coletiva, apenas um espetáculo intelectual.

Concordo que a sociedade financia entretenimento mas não arte. Mas discordo que a sociedade financie a pseudo-ciencia. Não. A sociedade só se interessa em financiar a ciência real, pois é ela quem traz os confortos que a sociedade ansia. Quem financia a pseudo-ciência são os "intelequituais", cientistas-políticos que proliferam nas estruturas sustentadas por meios puramente governamentais, onde o mercado não entra ou só entra de forma ultra-distorcida.

E se existe diferenca entre o cientista folgado e o cientista simulado, essa é uma distincão que me é inútil. Classifico os dois no mesmo grupo: o dos que destroem a imagem dos cientistas de verdade.

OK disse...

Shridhar, vc acha que eh possivel fazer pesquisa realmente isenta (de farmacos, tabaco, poluicao por petroleo etc) sendo financiado por empresas privadas (das respectivas areas?). Quais seriam as salvaguardas a serem tomadas? Ou o mercado tambem nao eh responsavel pelos lobies? Assistiu o filem "Obrigado por fumar?"

Shridhar Jayanthi disse...

Possível fazer pesquisa isenta é. Se eu tivesse sendo financiado por uma indústria, eu teria a sensibilidade de publicar os resultados independente de agradar o financiador ou abandonar o financiador (e botar a boca no mundo sobre ele) caso isso ficasse impossível.

Se isso acontece sempre, aí eu acho que não, muita malandragem acontece por aí. Mas veja que no longo prazo, mentira tem perna curta e é a reputacão do cientista (bem como a da empresa) que vai pro brejo. Foi assim com a indústria do tabaco, é assim com a indústria farmacêutica. Mercado é responsável pelos lobbies e o cientista está sim num conflito de interesses. Mas eu não vejo diferenca entre um conflito de interesses de mercado com um conflito de interesses ideológico-partidário (que vemos nas áreas de humanas no Brasil).

Um cientista não é um entidade superior, acima do bem e do mal: a reputacão dele pesa na palavra dita. Veja o debate do criacionismo por exemplo. Tem um monte de cientistas que não aceitam a evolucão natural, mas a reputacão deles impede que se leve eles mais a sério. Querer um cientista completamente isento é impossível; na melhor das hipóteses ele é corporativista.

Mas isso foge do foco. O tipo de investimento da indústria na pesquisa a que me refiro é mais no aspecto do desenvolvimento do que no contexto da pesquisa pura de levantamentos e validacões...

Sobre o filme "Obrigado por Fumar", o filme é ótimo! Assistam!

Silvia Cléa disse...

OI, Bruno!

***(Blogosfera pequena, hein? Saudades de vc...desde o primeiro HH em SJC, daí vc foi para a Europa e não nos vimos mais...agora te encontro aqui, que legal, seja bem-vindo!)

Retomando a discussão: a Ciência e os cientistas são um microcosmo da sociedade...assim, representam-na, refletindo seus interesses. Tanto o cientista de verdade, quanto o simulado (utilizando seus termos) estarão a serviço do investidor, quer público, ou privado. Não podemos nos iludir com a idéia de isenção ou falta de interesses particulares. Estes se instalam já na escolha do tema da pesquisa, orientador, bibliografia e por aí vai. Quem lida com pesquisa e área acadêmica sabe muito bem disso.
Depois, vem os interesses do Instituto, Centro em que o profissional está vinculado: uma coisa é o que vc quer pesquisar e outra, muito diferente é o que deve ser pesquisado (o que é "quente", o que chama dinheiro para o laboratório). Tudo deve ser levado em conta, até o interesse único e exclusivo do orientador.
O coitadinho do pesquisador de 'inciação científica' (primeiro degrau na carreira)é que fique bem caladinho e diga amém para o buana...

Maria Guimarães disse...

voltando à representação do cientista pela sociedade - claro que há licença poética, representação ficcional, sátira etc. etc. tudo vale e não ofende. mas acredito que seja sim, pelo menos em parte, um reflexo de como as pessoas vêem os cientistas. os ratos de verdade não se comportam como o jerry, mas ele foi elaborado com características que para o autor evocam o comportamento de ratos.
uma vez vi numa palestra desenhos feitos por crianças, quando lhes pediram que desenhassem um cientista. lá estava o cientista maluco, estampado em boa parte delas. mostra o que está no imaginário das pessoas.
se essa imagem coabitar a mente das crianças com a noção de que cientistas fazem coisas úteis, ou pelo menos interessantes, tudo bem.

João Carlos disse...

Sabe Maria?...

Eu temo que esses arquétipos sejam baseados em velhos padrões vindos dos "Magos": pessoas que lidavam com coisas "ocultas" às pessoas comuns.

Seu comportamento "diferente" era temido como "coisa demoníaca" (daí a figura do "cientista louco" e do "gênio do mal"), ou era simplesmente ridicularizada (e aí temos o "cientista avoado", bem ao gênero do Professor Girassol).

Hoje em dia, a coisa não mudou muito de figura... Os cientistas falam uma linguagem inacessível aos operadores de telemarketing que andam gerundiando por aí, e se ocupam de coisas "incompreensíveis" (se não de todo "demoníacas - já que as religiões fundamentalistas são o "porto seguro" dos ignorantes).

No dia em que a Apollo 11 alunissou, eu ouvi da boca de um pescador de Cabo Frio que aquilo tudo era uma "lorota" e que pisar na Lua era "coisa de gente que não teme a Deus" - por mais que a TV mostrasse a coisa ao vivo...

Dexter, Professor Girassol, ou Dr. Silvana: pode escolher o arquétipo. Só não dá para escapar dele... Pinky jamais vai entender o Cérebro...

Bruno disse...

Olá Shridhar! Olá Silvia (Coincidencia mesmo!)! Olá demais participantes do Roda de Ciencia!

Tem também aquele argumento que diz que a aproximacao da universidade com o mercado torna a universidade uma fonte de sub-empregos pra industria. Em vez da industria contratar alguem por, por exemplo, 10000 "dinheiros" pra fazer um trabalho T. Ela reformula o trabalho T em termos mais cientificos (i.e. com titulos mais obscuros, simbolos mais estranhos, e assim por diante) e paga apenas 5000 "dinheiros" pra um estudante de mestrado/doutorado/post-doc fazer o trabalho T' (T reformulado). A empresa paga só 5000 "dinheiros" e nao tem que pagar taxas e impostos que acontecem no caso de uma contratacao. A empresa tambem nao tem que manter o estudante depois que o trabalho T' acabar. O estudante ganha 5000 "dinheiros" e um papel com o titulo de mestre ou doutor, e vai vender coco na praia (como disse o Shridhar em um outro post), porque ele está "overqualified" pra qualquer emprego na industria, já que esta vai continuar subempregando a nova geracao de mestrandos e doutorandos. A universidade ganha no curto prazo, aumentando o numero de estudantes, o numero de papers publicados, a propaganda do vinculo com o mercado...

O que acham??

Até,

Bruno
http://bruno-wp.blogspot.com/

Shridhar Jayanthi disse...

A indústria não consegue manter esse estilo por muito tempo. Se a universidade está cobrando 5000 dinheiros, ela está sendo estúpida, está vendendo seu produto barato. Normalmente (ao menos por aqui), a Universidade paga 5000 dinheiros para o aluno mas cobra 15000 dinheiros da empresa por um trabalho que a empresa gastaria 10000 se fizesse in-house. O aluno pode ganhar só 5000 dinheiros mas o professor-consultor ganha os mesmo 10000 que um phd que trabalha na empresa (parte diretamente, parte via overhead que fica na universidade).

Então porque alguém iria jogar um trabalho na universidade? Porque quando vc tem trabalhos com alto risco, típicos do meio acadêmico, a empresa prefere não se comprometer com tal atividade enquanto que o meio acadêmico tipicamente gosta de fazer esse tipo de coisa - sempre pode-se publicar um artigo. O índice de motivação é alto (o que também pode causar redução do preço cobrado pela atividade, mas não significativamente).

Em tese, um doutor que vende coco na praia (independente dos motivos) por uma razão diferente de paixão por cocos está se comportando contra o princípio da própria educação. A educação sob a ótica pessoal existe para engradecimento pessoal, mas sob a ótica de políticas públicas, existe para aumentar o valor agregado da produção na economia. O estado investe em vc pra que vc seja mais produtivo do que vc seria antes de ter passado pelo sistema educacional.

Daí eu volto ao meu mote: a gente poderia até querer medir qualidade acadêmica em termos de número de publicações pq é, de fato, o melhor índice objetivo, mas no aspecto subjetivo, vc sente a eficiência da academia na sociedade quando vc vê produtos, estudos e serviços disponíveis no mercado que não estariam lá se não fossem pela existência dessa instituição.

Uma rápida comparação com a sociedade americana me leva a crer que um dos problemas no Brasil é que é um cenário que leva o indivíduo a ser avesso ao risco. Eu lembro que quando fazia o curso de Engenharia(!), a simples idéia de abrir uma empresa me virava o estômago. Conheci menos de 10 colegas durante meu curso que falavam que iam abrir uma empresa. A legislação, a burocracia, tudo isso afeta. Aqui, outro dia, eu discutia com alguns colegas o que eles pretendiam fazer depois do doutorado e um deles, americano, falou que pensava em começar uma empresa, uma start-up. Quando perguntei se isso não era burocrático demais, o que vc tem que fazer a resposta foi "pretty much, nothing".