20 outubro, 2007

Ser cientista

Sou cientista. Adoro falar isso às pessoas, principalmente para ver a reação de cada um. A maioria, ao ouvir essa afirmação, começa seriamente a duvidar das minhas faculdades mentais; outros, mostram preocupações de natureza econômica (é fato, a ciência não paga bem em qualquer lugar do planeta); e há aqueles ainda que acham a profissão tão glamourosa quanto astros de Hollywood, algo para pessoas "muito inteligentes, beirando a genialidade"(!). E tem ainda um último grupo, os que acreditam na versão ficção científica da coisa: ando por aí de jaleco branco e luvas roxas, dando risadas malignas, com planos para conquistar o universo e carregando tubos de ensaio saindo fumacinha, como no desenho do Dexter.

(Leia o resto aqui.)

21 comentários:

João Carlos disse...

Lúcia:

Reminiscências, já?... Deixa isso para os dinossauros, aqui... :D

Mas, sobre o seu artigo, eu destaco a seguinte passagem:

Sempre achei que biólogos deveriam ser capazes de responder prontamente a perguntas que vão desde detalhes anatômicos de um cacto à ecologia de tundra, passando pela nomenclatura dos nudibrânquios e pelos tipos de fósseis disponíveis no Quênia. Algo que, obviamente, eu não sei responder. Posso saber como procurar a informação, e ler sobre o assunto, e quem sabe até argumentar um pouco, mas de cor e salteado... necas! Portanto, não acho que seja bióloga por inteiro. (O grifo é meu)

Ooops!... Eu grifei a parte que, no meu entender, diferencia exatamente o "cientista" de uma "enciclopédia ambulante". E a grande vantagem é que as "enciclopédias" ficam com seus verbetes desatualizados diariamente... Se alguém precisa de uma ilustração, veja os artigos que o Caio de Gaia vem publicando, desde que voltou de suas andanças pelas Índias: praticamente todos descrevem novos conhecimentos adquiridos sobre questões de biologia que, se pensava, estavam "esgotadas".

Você, agora, já deve se ter dado conta de que os cientistas não estão aí para responder perguntas, mas para fazê-las...

Parodiando: Tudo de busca pelas perguntas ainda não feitas, sempre!...

Lucia Malla disse...

Hahahaha, João!! Adorei sua paródia, perfeita!!! :)

Sim, essa visão mudou. Hoje eu vejo muito mais a pergunta como a peça fundamental para o bom cientista - embora sejamos o tempo todo requisitados a não errar, a sermos enciclopédias ambulantes, contradizendo o sentido mais profundo de ser cientista numa sociedade. Mas ainda vejo uma diferença nítida na cara das pessoas quando falo q sou bióloga ou quando falo q sou cientista. O "cientista" carrega um significado social muito mais profundo para as pessoas não ligadas à ciência. Quando digo q sou bióloga, as pessoas sempre acham q sou apenas mais uma ecoxiita, ou uma investigadora de asas de borboleta da Amazônia que se isola do mundo ou algo assim, e só. Tem menos intelectualidade no sentido de "biólogo" q de "cientista" na visão do leigo. A meu ver, isso é triste, mas é como eu constato q são, com as pessoas a quem já fiz essa pergunta em conversas triviais.

João Carlos disse...

Tem menos intelectualidade no sentido de "biólogo" q de "cientista" na visão do leigo.

Cadê o Daniel quando a gente precisa dele?... Nosso PhD em Física de Altas Energias é graduado em "Ciências Moleculares", o título mais "genérico" que eu já vi para um curso de formação de cientistas multi-disciplinar.

By the way, toda vez que eu queria atormentar uma ex-namorada bioquímica, eu chamava ela de "boticária"... :) (Sabe?... "Farmácia e Bioquímica"?...) Será que foi por isso que ela me mandou às favas?...

Maria Guimarães disse...

joão carlos, concordo: o cientista deve saber pensar, procurar informações, processá-las de outra forma. o biólogo também. nada de ser enciclopédia ambulante.

João Carlos disse...

Lúcia e Maria:

Quando a Lúcia falou em "ecoxiítas", eu imediatamente associei a outro neologismo que encontrei numa seção tipo "cartas dos leitores" no Le Monde: "ecolôs" ("gigolôs da ecologia"). São aproveitadores desse tipo que confundem os "leigos" e criam esse tipo de "discriminação arquetípica" que leva a Lúcia a encontrar mais aceitação quando se declara "cientista", do que quando se apresenta como "bióloga".

Silvia Cléa disse...

Oi, pessoal!

Não resisti a tentação de colocar aqui uma entrevista que saiu há 2 dias (é que está muito propícia ao tema em questão), com um dos ganhadores do atual Nobel da Paz, comentando sobre o outro...(desculpem-me o fato de estar em inglês). Boa leitura:

Notable & Quotable
Wall Street Journal;
October 25, 2007; Page A23
John Christy of the U.N.'s Intergovernmental Panel on Climate Change (co-recipient of this year's Nobel Peace Prize) responds to questions by CNN anchor Miles O'Brien:

O'BRIEN: I assume you're not happy about sharing this award with Al Gore. You going to renounce it in some way?

CHRISTY: Well, as a scientist at the University of Alabama in Huntsville, I always thought that -- I may sound like the Grinch who stole Christmas here -- that prizes were given for performance, and not for promotional activities.

And, when I look at the world, I see that the carbon dioxide rate is increasing, and energy demand, of course, is increasing. And that's because, without energy, life is brutal and short. So, I don't see very much effect in trying to scare people into not using energy, when it is the very basis of how we can live in our society.

O'BRIEN: So, what about the movie ["An Inconvenient Truth"]; do you take issue with, then, Dr. Christy?

CHRISTY: Well, there's any number of things.

I suppose, fundamentally, it's the fact that someone is speaking about a science that I have been very heavily involved with and have labored so hard in, and been humiliated by, in the sense that the climate is so difficult to understand, Mother Nature is so complex, and so the uncertainties are great, and then to hear someone speak with such certainty and such confidence about what the climate is going to do is -- well, I suppose I could be kind and say, it's annoying to me.

O'BRIEN: But you just got through saying that the carbon dioxide levels are up. Temperatures are going up. There is a certain degree of certainty that goes along with that, right?

CHRISTY: Well, the carbon dioxide is going up. And remember that carbon dioxide is plant food in the fundamental sense. All of life depends on the fact carbon dioxide is in the atmosphere. So, we're fortunate it's not a toxic gas. But, on the other hand, what is the climate doing. And when we build -- and I'm one of the few people in the world that actually builds these climate data sets -- we don't see the catastrophic changes that are being promoted all over the place.

For example, I suppose CNN did not announce two weeks ago when the Antarctic sea ice extent reached its all-time maximum, even though, in the Arctic in the North Pole, it reached its all-time minimum.

João Carlos disse...

Do comentário acima transcrito, eu ressalto a passagem:

Eu acho que, fundamentalmente, é o fato de alguém estar falando de uma ciência, na qual eu estive grandmente envolvido e onde tenho trabalhado tanto, e ser humilhado por ela, no sentido de que o clima é tão difícil de compreender, Mamãe Natureza sendo tão complexa, e, portanto as incertezas são grandes, e, aí, ouvir alguém falar com uma tal certeza e tal confiança sobre o que o clima vai fazer -- bem, eu acho que posso dizer que isso me aborrece.

Analisemos: a meteorologia é uma ciência extremamente incerta e a climatologia é recém-nascida. Mas -- suponhamos para argumentar e somente para argumentar -- que o "alarmismo" do Gore seja, afinal, demonstrado como "uma verdade inconveniente" (ou, em outras palavras, que ele esteja certo, mesmo que pelos motivos errados).

O que é melhor? Emitir uma previsão "alarmista" de uma tempestade e fazer as pessoas carregarem guarda-chuvas à toa, ou ficar indeciso, não falar do perigo de haver uma tempestade, e ela desabar e inundar tudo?...

A apresentação do Relatório do IPCC tem um tom bem mais "alarmista" do que a opinião pessoal do Dr. Christy. E é apenas de se supor que nem todos os componentes do IPCC tenham chegado às mesmas conclusões, mas que o resultado seja reflexo das opiniões da maioria.

O bias do Dr. Christy se trai na declaração: E, quando eu olho para o mundo, eu vejo que a taxa de dióxido de carbono está subindo e a demanda por energia, é claro, está subindo. E isto é porque, sem energia, a vida é brutal e curta. Então, eu não vejo muito efeito em tentar apavorar as pessoas para não usarem energia, quando ela é a própria base de como podemos viver em nossa socieadade. .

"Nossa" significa de quem, cara-pálida?... Isso se traduz, em termos mais claros, em que o Dr. Christy não quer deixar de usar seu carrão para ir trabalhar, não quer renunciar ao conforto de calefação elétrica e, talvez mesmo, aprecie o brilho das luzes de Las Vegas. Se Bangladesh tiver que desaparecer do mapa para isso, que pena!...

Mas dividir o Prêmio Nobel com um politiqueiro como o Gore dói... O Dr. Christy, na certa, preferia publicar meia dúzia de papers na Nature e obter a aprovação de seus "pares"... enquanto o governo americano continuasse a gastar e poluir como se não houvesse amanhã! Só que os eleitores não costumam ler a Nature, mas se Al Gore aparece em um filme dizendo que esse desperdício idiota tem que acabar, muita gente vai parar para pensar uma segunda vez...

O que será que realmente incomoda o Dr. Christy? As "imprecisões de leigo" e a exploração política do Gore, ou o fato de que Gore foi premiado individualmente, enquanto ele é apenas um "voto vencido" no IPCC?...

Perdeu uma excelente ocasião de ficar calado!...

Silvia Cléa disse...

Oi, João Carlos!

Quando eu pensei em postar a entrevista acima sabia do risco que corria de um suposto desvio de foco, mas o debate toma o rumo que o grupo sugere...então vamos lá!
O que eu pretendia enfocar era a questão da ética e a importância que se deve dar à palavra dita/escrita, principalmente quando todas as lentes do mundo estão voltadas para si. Já não é de hoje que se sabe que para construir uma imagem leva-se muito tempo, mas para destruí-la, bastam alguns segundos...
Não é à toa que estamos todos discutindo o pronunciamento de Mr. Watson...Como se aquele não bastasse, vem à publico essa pérola. A mim me chocou muito mais a desconsideração para com o colega laureado do que os argumentos, pouco embasados, de sua revelia. Explico-me.
Ele deixa claro seu desgosto com o uso político do conhecimento científico por Al Gore. Mas o Nobel por acaso é um prêmio a-político? Antes de levantarem quaisquer bandeiras, pensem. Realmente não há interesse político algum envolvido na escolha dos laureados? E dentre as categorias cito, principalmente, aquela cujo prêmio recebeu, ou seja, a de Nobel da Paz. Penso ser esta a de cunho mais político entre todas.
Assim, seu argumento é falacioso. Como vc mesmo disse, deveria ter permanecido calado.
Agora, não consegui ainda ver razões que justificassem uma falta de ética e decoro....aliás, chega a ser falta de educação falar que ele merecia mais do que Al Gore. Não sei quais são seus parâmetros...talvez ele acredite que promoveu mais paz..como? O reporter comeu esta bola homérica!
Acho que precisamos´, de agora em diante, é ficar de olho neste cidadão...talvez seja uma concha produtiva e venha mais coisas por aí...

Shridhar Jayanthi disse...

Permita-me discordar aqui. A parte que mais incomoda o Dr. Christy está aqui:

"But, on the other hand, what is the climate doing. And when we build -- and I'm one of the few people in the world that actually builds these climate data sets -- we don't see the catastrophic changes that are being promoted all over the place."

Além disso, eu discordo que os Nobel de ciências tenham no mérito alguma orientacão política. Talvez a pessoa que recebeu o prêmio não seja a mais indicada, mas o assunto é sempre notório. Já o Nobel da Paz é bastante político sim. Tanto é que o Al Gore ganhou.

A entrevista dele é clara, vocês que não estão querendo ler. Ele não acha que deveria ter ganhado o Nobel sozinho; ele acha que o que o Al Gore tem feito é apenas uma propaganda sobre o aquecimento global e que isso não é contribuicão pra paz coisa nenhuma:
"that prizes were given for performance, and not for promotional activities".

Também vou discordar do que vc diz João, sobre o alarmismo. O exemplo que vc deu está fora de escala. O alarmismo não leva as pessoas a apenas carregarem guarda-chuvas à toa. O alarmismo neste caso leva pessoas a não sairem de casa. O combate ao aquecimento global tem um custo elevadíssimo sim. E não é dirigir carrões, João. Estamos falando da energia elétrica para usar computadores, laboratórios, fábricas de alimentos, fazendas.

O filme do Al Gore é ofensivo pra alguém com algum conhecimento de ciências (eu tive a mesma impressão do Dr. Christy, apesar de não ser meteorologista) - é um manifesto daqueles que eu chamo de ciência como religião. Me lembra o Malthusianismo. É verdade que devemos combater o disperdício sim, mas não é só disso que se trata o tal aquecimento global. É preciso repensar as matrizes energéticas do planeta e desligar as usinas de uma hora pra outra não vai gerar resultado útil algum.

João Carlos disse...

Shridhar:

Eu ia comentar o comentário da Sílvia, mas você chegou antes... Bom, se o Dr. Christy não vê nos modelos dele as "catástrofes que andam propalando", o Dr. Nielsen da Universidade do Oregon e do Serviço Florestal do Departamento de Agricultura, vê (veja aqui). E então: qual dos dois está correto?

Eu não vou me pronunciar sobre o filme do Gore, porque eu ainda não vi (prometo que vou ver e comento depois). O que me irrita é essa arguição de "rigor científico" como se os outros membros do IPCC fossem uns "Homer Simpsons" que tivessem visto o filmeco do Gore e desandado a andar pelas ruas portando cartazes: "Prepare to meet thy doom!"

E - já que você mencionou a energia elétrica - nós não estamos falando da energia socialmente necessária, mas estamos falando também de Las Vegas e outras coisas perfeitamente dispensáveis... E a situação é Malthusiana.

Silvia Cléa disse...

Oi, Shridhar!

Bem, qual é o ponto que mais incomoda o laureado, realmente eu não me atrevo a palpitar...principalmente em um texto jornalístico ;o)))) (brincadeirinha)...
Mas é que fica difícil a gente saber ao certo qual é o peso maior para ele...por isso dei a minha visão: o que doeu em mim!
Volto a afirmar que o Nobel é sim político, porque as ciências não são neutras e o fazer ciência não pode sê-lo. Durante sua vida acadêmica e nas suas pesquisas vc faz escolhas e tem uma vida social e repleta de "coligações" (para usar uma palavra melhor)...isso tudo refleto, na melhor das hipóteses, em posições políticas - vc pode não estar ciente delas (ser massa de manobra - coisa que eu duvido), mas sempre existirá uma postura política por trás.
Isto posto, quando vc extrapola os muros, limites fronteiriços e chega aos laureados, vê a que me refiro, quando falo da política do Nobel; e, como vc concordou, ainda mais no caso em questão.
Então, com a frase que vc citou ("that prizes were given for performance, and not for promotional activities"), ele está querendo reclamar a quem, ao comitê que o escolheu? Sim, ele é um cientista que foi laureado com um premio de Paz, e qual é, digamos, o critério para tal???
Tb tenho os meus senões em relação ao filme do Al Gore, mas não é esse o fulcro da discussão aqui, pelo menos não é isso que gostaria de realçar.

Shridhar Jayanthi disse...

Sílvia, que a vida acadêmica é repleta de politicagens, isso é notório. Mas a ciência é sim, neutra. Eu aposto o quanto você quiser que não existe lobby de cientistas no mundo que consiga derrubar a lei da Gravidade. Talvez algum cientista aposte que possa reformular a lei da gravidade - estas são as decisões políticas que tomamos na vida, mas os modelos tem sempre que se dobrar às observacões, e estas simplesmente acontecem, independente da crenca do cientista (mas não da velocidade de seu laboratório!). Existe um motivo pelo qual o método científico exige repetibilidade: para livrar os cientistas de seu próprio viés.

Pelo visto, a reclamacão é sim ao comitê que o escolheu. Ele questiona o critério pelo qual o prêmio Nobel da paz deste ano foi escolhido. É exatamente isto. Assim como todo o resto do mundo que achou um absurdo o Nobel da Paz deste ano.

João, se vc sabe sobre a história da teoria Malthusiana, sabe que ela foi vencida pela ciência, pela tecnologia e não através de racionamento de sociedades inteiras. Acho que a questão toda dos tradeoffs entre energia e gás carbônico passa também por aí, ainda mais que o horizonte da catástrofe é de, nos modelos mais exagerados, 50 anos. Ciência e tecnologia. Pode apostar: se o trend de aquecimento global continuar nesta rampa, em 10 anos os EUA já vão estar com tecnologias de sequestro de carbono ativas. Foi assim com a camada de ozônio (lembra dos CFC?). Foi assim com as chuvas ácidas.

A diferenca entre energia socialmente necessária e supérflua é bastante subjetiva. Os Neons de Las Vegas sustentam a economia da região. É tão importante pra eles quanto a energia elétrica do meu computador é importante pra mim e tão importante quanto o gás de cozinha de quem vende marmitex.

Olha, eu não tô tentando negar as medicões de cientistas, mas estou debatendo o alarmismo apenas. O modelo de queimadas na Califórnia de Neilson é muuuuito menos perigosa do que o tal derretimento das calotas polares e a influência das reservas de combustível geradas pela supressão de incêndios foi minimizada também, na reportagem.

Dito isto, não vou ficar aqui a defender o fim das tecnologias de sequestro de carbono ou do protocolo de Kyoto... Essas coisas tem que acontecer, temos que diminuir o consumo na medida do possível. Mas sem radicalizar.

Silvia Cléa disse...

Oi, Shridhar!

Confesso que, se vc responde:"Eu aposto o quanto você quiser que não existe lobby de cientistas no mundo que consiga derrubar a lei da Gravidade" para argumentar que as Ciências são neutras, realmente vc não entendeu nada do que eu, didaticamente tentei expor.
Por trás do uso das Ciências está o homem e este sim, é um ser político. Tente fazer pesquisa sem o financiamento que a embasa...pense, então, se não há interesses atrás do menor ato, desde a "descoberta mais básica" dentro das ciências. Como diz o ditado...nada acontece por acaso! ;o))))

João Carlos disse...

Shridhar:

Eu discordo de você quando diz que a Malthus foi vencido pela tecnologia, apenas. Ele continua bem atual, por exemplo, na China (onde o crescimento populacional desenfreado foi freado por drásticas medidas de controle de natalidade). Ele continua atuando na África Subsaariana e nos grotões deste Brasil em que vivemos.

O problema com a camada de ozônio não piorou, mas ainda não reverteu. E isso se deu porque se tomou medidas urgentes e eficazes para substituir os CFCs.

A acidificação dos oceanos e, principalmente, das águas costeiras, mais rasas, é um fato. A própria capacidade de absorver o CO2 está diminuindo; não sou eu quem diz: leia Decline in uptake of carbon emissions confirmed (eu peguei este link no EurekAlert).

Eu já comentei acima que não vi o filme do Gore e que acredito que ele possa até estar certo pelos motivos errados.

Depois eu volto ao tema...

Shridhar Jayanthi disse...

Sílvia, acho que vc não entendeu nada do que eu estou colocando aqui.

Vamos supor, por exemplo, que a Exxon Mobil esteja pagando um cientista pra provar que o aquecimento global não existe. E vamos assumir que os dados indiquem que ano que vem vai haver 10 vezes mais furacões do que neste ano por conta do aquecimento global. Uma vez diante destes fatos o cientista tem 2 opcões: (i) revela a descoberta e perde o financiamento ou (ii) mantém o financiamento e nega os resultados.

Daí vem o ano seguinte e o temos 10 vezes mais furacões. O cientista do caso (i) pode sair por aí falando que as coisas aconteceram como ele previu e consegue financiamento rapidamente. Já o cientista do caso (ii) cai em desgraca e perde o financiamento. As decisões que o cientista fez foram políticas, foram em funcão do meio, mas os resultados de uma pesquisa não dependem de quem deu o dinheiro. Um cientista pode ser anti-ético, mas o comportamento dele não muda a ciência, apenas diz a respeito da qualidade dele como cientista e, cedo ou tarde, ele será descoberto (mesmo se isso ocorrer depois de morto, como na história do movimento Browniano).

A ciência não é só o que o cientista gera. O termo original é ciência; o cientista só a estuda. Cientistas são seres políticos mas não é a ciência que se altera com o humor dos cientistas (isso não é muito verdade em algumas ciência sociais, mas isso não vem ao caso...).

E ao contrário do seu ditado... Pergunte pra um fóton que faz parte de um padrão de difracão por fenda dupla como é que ele foi parar lá. A resposta vai ser exatamente esta: por acaso.

Silvia Cléa disse...

Cada vez eu fico mais espantada com suas argumentações...
Mas vamos lá, que estou gostando da brincadeira!!!! ;o)))
Já disse e repito, que vc não "leu" corretamente o que eu quis dizer com a política nas Ciências...
O financiamento é explicado politicamente não para mudar o valor de "g" ou lambda ou qualquer constante que vc esteja mais acostumado....mas para eu escolher entre vc e o seu vizinho de porta...quem me interessa mais que siga na mesma linha de pesquisa, vc ou ele? É assim que move o mundo! Se ainda não aprendeu isso...aproveite a puberdade, logo logo vem a adolescência e entredada na fase adulta, onde, necessariamente muitos desprazeres são experimentados, inclusive a certeza da convivência com perdas e nãos simbólicos.
Sinto muito, não se pode ganhar sempre...e não é por acaso que nossos pedidos de financiamento em pesquisa são aceitos, muito pelo contrário, afinal, a vida das Fundações de Amaro à Pesquisa é muito diferente daquela existente entre as camadas moleculares...

Shridhar Jayanthi disse...

Sílvia, o seu sarcasmo é dispensável. Assim como seu exibicionismo gratuito.

Sobre o debate... se eu fosse te responder, eu ia falar mais ou menos a mesma coisa, só que com a palavra Fapesp no lugar de Exxon Mobil. Já estou ficando repetitivo, então não vale a pena escrever mais sobre isso. Divergimos em questão de princípios e o debate fica aí pra quem quiser ler.

Sobre ganhar e perder... Eu não estou aqui pra "ganhar" não. Estou aqui discutindo idéias com pessoas que eu imagino serem meus pares. Eu não ligo de "perder" (como já ocorreu em muitos debates, particularmente com o João!), contanto que eu entenda onde está a falha no meu raciocínio.

Mas se você prefere assim, vamos lá! Parabéns Sílvia, você venceu.

João Carlos disse...

Meninos!... Olhem os modos!...

Shridhar:

A falha na sua linha de raciocínio é que você está falando de física e de teorias científicas comprováveis em experiências comprováveis em condições controladas em laboratório.

Se há alguma coisa que a climatologia não preenche, são os critérios acima. Tudo o que se tem são modelos matemáticos, necessariamente imperfeitos por construção. Para lidar com climatologia, você tem que se valer de Teoria do Caos, Teoria dos Jogos (notadamente na questão da influência humana sobre o ambiente) e uma pitada de absoluta aleatoriedade, porque nada impede que um evento tipo Krakatoa ou Banda Aceh surpreenda a todos.

Os climatologistas estão perfeitamente cientes dessa incerteza, impossível de remover. Mas são perfeitamente capazes de discernir entre uma tendência natural e um efeito causado pela espécie humana. O caso dos CFCs e a Camada de Ozônio que você mesmo levantou, são uma prova contundente.

Pesquisas e seus resultados podem ser "encomendados" por organizações e governos com interesses não confessáveis no assunto?...Claro que sim!

No caso específico da climatologia, está em jogo toda uma estrutura de poder político e interesses econômicos, bem como de modus vivendi das populações mais ricas do planeta. E, sempre bom lembrar, de países ricos e populosos, como os EUA e China. Mudar o modus vivendi dessas populações, por si só, é uma tarefa para muitos Hércules.

E onde entra o papel dos cientistas nisso? Exatamente em que ficam entre a cruz e a espada. Se emitirem um alarme de "desastre ambiental iminente" e, posteriormente, se verificar que o perigo não era tão grande ou iminente assim, ficarem desacreditados e serem cobrados dos imensos gastos e privações a que vão, fatalmente, ter que submeter exatamente essas populações enormes e prósperas.

Por outro lado, se não emitirem alerta algum e as catástrofes acontecerem, vão ficar igualmente estigmatizados: "vocês sabiam e não avisaram!"

Não é uma situação das mais confortáveis, admito. Mas não há mais como negar que as mudanças climáticas já estão batendo a nossa porta (a Costa do Golfo do México e o Sul da Califórnia que o digam...) e o quadro, por tudo o que sabemos, só tende a se agravar, seja por causa das atividades humanas ou não! Se alguma coisa pode ser feita para reduzir estes impactos iminentes, a hora para começar é já!

Não há mais tempo para perder com questiúnculas mesquinhas, tais como se o Al Gore é um politiqueiro e está "tomando carona" na questão ambiental. Ela existe e ficar lançando na mídia dúvidas sobre a gravidade da situação - principalmente por motivações discutíveis - não contribui em nada para melhorar a "Representação Social dos Cientistas".

Silvia Cléa disse...

Oi, Shridhar!

Realmente vc não entendeu nadinha!
Desde o "sarcasmo dispensável" até o "exibicionismo gratuito"!!!!
Meu intuito aqui foi mostrar as incoerências do laureado...se estava sendo irônica, era com o fato de ele chorar pitangas em público,porque, sendo cientista, preferiria ganhar um outro Nobel que não o da Paz, um prêmio essencialmente político!
Mas, qdo fez tal declaração, esqueceu-se de que dividia o prêmio com outra pessoa e, portanto, a estava ofendendo. Era isso o que estava querendo dizer desde o início e vc não estava entendendo.
Tentei mostrar de diversas maneiras. Lógico que nossas falas aqui têm outra função, que não se restrige ao simples diálogo/debate entre duas pessoas/idéias, mas fomentar a reflexão de nossos leitores e tb divulgar ciências.
Portanto, Shridhar, em momento algum eu entrei nesta "onda" de ganhar ou perder...sensação bastante (desculpe-me) imatura para um posicionamento de discussões (sejam em que níveis for, acadêmicas ou não).
Se, por ventura te ofendi, porque a conversa acabou desvirtuando, desculpe-me. Quis apenas retratar como é fazer ciência aqui, ou seja, saiba conviver com muitos "nãos".
Mais uma coisa, quem se exibe precisa de palco e não de Roda, para aprender...eu, ainda acho que preciso da segunda.

João Carlos disse...

Shridhar:

Aproveita e dá uma olhadinha nisto: Human-generated ozone will damage crops, according to MIT study... Alarmismo, também?...

OK disse...

Shridhar: De uma olhada neste paper, pois acho que vc e a Silvia estao falando sobre coisas diferentes. De uma olhada na secao IV desse artigo do Goodstein, aqui:

http://dfm.ffclrp.usp.br/coteia/mostra.php?ident=44.4