26 março, 2009

Os próximos 150 anos

(...) No entanto, o núcleo central da teoria de Darwin, de que os organismos lutam pela sobrevivência usando as armas que dispõe no seu ‘pool’ de genes, se mantém intacto e vem sendo fortalecido a cada novo resultado. Vem dai a razão da grande aceitação da teoria: ela funciona! Explica uma enorme variedade de fenômenos e observações, e contribui para além da biologia, em campos como o desenvolvimento de drogas na industria farmacêutica ou de componentes eletrônicos na industria de informática. A seleção natural é poderosa mesmo no maior de seus desafios: explicar a evolução humana. A idéia do homem como topo da evolução é um pilares que sustentam os princípios religiosos, mas análises recentes mostram que a nossa espécie, o Homo sapiens, não só evoluiu, como evoluiu muito nos últimos 10.000 anos, e com velocidade assustadora. Um exemplo de adaptação recente é a habilidade de digerir leite em adultos do norte europeu. Também temos muito menos dúvidas sobre nossas origens,. Sabemos que não viemos exatamente dos macacos, mas de um ancestral comum remontando aos primeiros Australopithecus entre 4 e 7 milhões de anos atrás (veja o texto Uma breve história do homem). Leia mais no VQEB.

4 comentários:

Osame Kinouchi disse...

Oi Mauro,

Realmente é dificil imaginar o estado da Teoria da Evolução daqui a 150 anos. Acho que vai ter que incorporar de forma mais radical as propostas de simbiose mutualista de Margulis e absorver a ideia de que a "unidade de seleção" são grupos de genes co-evolucionados, em vez de genes individuais. Mesmo a ideia de seleção de grupo, seleção de super-organismos (colonias) e mesmo seleção de redes compactas de especies interagentes mutualistas vai ganhando força.

Eu faria um reparo na afirmativa;
" A idéia do homem como topo da evolução é um pilares que sustentam os princípios religiosos, mas análises recentes mostram que a nossa espécie, o Homo sapiens, não só evoluiu, como evoluiu muito nos últimos 10.000 anos, e com velocidade assustadora."

Não acredito que religioes antigas colocassem o homem no topo da escala hierarquica dos seres(acho que esse topo era ocupado por anjos, arcanjos, deuses pagãos etc). A humanidade é tida em principio como serva e escrava dos deuses, marionetes de seus caprichos, e a idéia de que Deus é um pai (não apenas patriarcal, mas um pai amoroso) é uma idéia bastante tardia e não universal no universo religioso.

Não aparece nas religioes andinas, nem na India, nem no Egito ou mesmo Grécia e Roma. O homem não está no topo da criação nessas religiões, ele é uma criatura esmagada entre outras criaturas, deuses e monstros mitologicos superiores. Logo, o antropocentrismo não é um fundamento para as religiões em geral.

O fixismo na espécie humana também não é um conceito religioso: tanto os gregos como os judeus, por exemplo, viam o processo da história humana como um processo de decadencia de uma idade do Ouro. O mito da androginia ("da cara metade") de Platão é religioso mas não é fixista, e para os judeus a duração da vida humana estava diminuindo (um mito que pode refletir o fato de que realmente a qualidade de vida das classes populares diminuiu com a introdução da agricultura).

Em especial, o fixismo não é um principio religioso nas religioes Nova Era, que postulam uma engenharia genetica ativa em cima dos humanos por parte de ETs (e eles aventariam essa evolução acelerada que vc assinalou como evidencia a favor de suas idéias conspiratórias).

E Artur C. Clark, famoso agnóstico, ficou famoso justamente por imaginar uma manipulação tipo Inteligent Design no livro e filme Uma Odisseia no Espaço. Francis Crick também acreditava que nossas primeiras bactérias teriam sido deixadas (intencionalmente ou não) por visitantes espaciais.

Ou seja, eu acho que na questão do Inteligent Design, o que devemos defender não é que ele seja logicamente impossivel ou improvável (qualquer ideia pode ser elaborada de forma sofisticada dado tempo e imaginaçao suficiente - vide teorema de Quine), mas sim que é uma ideia de Ficção Científica (ou, nas versões sofisticadas que não contradizem teorias bem estabelecidas, como o tal Teismo Evolucionista do Francis Collins, de especulação filosófico-científica).

Assim, o argumento para não se ensinar isso nas escolas é que não se ensina Ficção cientifica nas aulas de ciencia, mas sim nas aulas de literatura. Em outras palavras, acho que os textos religiosos antigos, com seus milagres, seres maravilhosos e acontecimentos extraordinarios, eram equivalentes à literatura de FC daquela época.

PS: Engraçado que o conto mais lembrado de Isaac Asimov (ateu de carteirinha) é aquele em que um ser futuro que é a fusão Humanidade-Computador encontra a resposta sobre como reverter a segunda lei da entropia depois de Bilões de anos de pesquisa, e na frase final diz: Fiat Lux. Ou seja, outro exemplo de FC que incorpora o conceito de Deus como um ser que não existe, mas existirá (embora o autor sem querer sugira que, se isso é possivel no futuro, entao teria sido possivel no passado). De novo, isso não é ciencia, mas Ficção Científica (literatura). Deixemos a literatura para as aulas de portugues e a literatura mitica religiosa para as aulas de religiao. Conservemos as melhores teorias da atualidade para o ensino de ciencias...

João Carlos disse...

Uma nota de pé de página e nem diretamente relacionada com o post; mais com o comentário do Osame:

A recente descoberta de "bactérias assassinas do espaço exterior" (deve ser o "Plano 10"... :D ), conseguida por discípulos escancarados da panspermia (tanto que homenagearam Sir Fred Hoyle em uma das espécies), levou os adeptos da panspermia a bradar "vitória!" (prematuramente, a meu ver) e os contrários a clamar "absurdo!", como se a ausência de provas fosse prova de ausência. Sic transit gloria mundi...

Especificamente quanto à argumentação do Osame, eu estou enxergando uma falha: todas as entidades sobre-humanas citadas são sobrenaturais. Nas entidades naturais, a espécie humana sempre é o "estado-da-arte".

Osame disse...

Não sei se concordo, João. Acho que os antigos não tinham o conceito de entre sobrenatural versus ente natural: um espirito ou deus que se manifestava em transes e oráculos eram tão reais (e misteriosos) quanto a atração eletrica do ambar ou de uma pedra de magnetita. A divisão entre natural e sobrenatural é tardia, acho que desenvolvida pelos escolasticos na idade média talvez...

Maria Guimarães disse...

eu acho que a seleção natural é sim uma lei da natureza. mas não é a única. nos próximos 150 anos, o desafio é integrar todas as leis numa constituição coerente.