04 março, 2009

Por que Darwin ainda incomoda?

Por que será que a Evolução e a Seleção Natural ainda incomodam tanto e causam reações extremadas, notadamente entre as pessoas que se dizem religiosas? Na verdade não se vê tanta reação contra a Astronomia, contra a Geologia ou mesmo contra a Física, embora todos esses ramos da ciência contradigam frontalmente o “livro sagrado” das religiões originadas da judaica.

A Astronomia botou por terra um ponto fundamental do fundamentalismo: a Terra não é o centro do universo, nem sequer um ponto notável no mesmo.

A Geologia, por sua vez, desmente de maneira cabal a cronologia bíblica e não se vê qualquer “tour-de-force” como o “Intelligent Design” para contestar seus ensinamentos.

(Continue lendo aqui)

6 comentários:

Luiz Bento disse...

Como diria SJ Gould, estivemos, estamos e sempre estaremos na Idade das bactérias...

Só um detalhe. Não só a espécie humana tem a capacidade de modificar o ambiente em seu próprio proveito. Em ecologia este padrão é bem estudado. É o que chamamos de "Espécies engenheiras". É claro que a taxa e tamanho da modificação vai variar muito e a mudança antropogênica pode ser bem maior.

Mas não esqueçamos que se não fossem as cianobactérias hoje não teríamos uma atmosfera óxica. Então mudanças ambientais não antropogênicas podem sim ser relevantes.

Abraços.

Igor Santos disse...

Eu sempre digo que as galinhas são tão evoluídas quanto os humanos e os tubarões, por terem mudado tão pouco num espaço tão longo de tempo, são o ápice da evolução deles mesmos.

Talvez, por termos a habilidade de adaptar o ambiente, estamos perdendo a nossa capacidade de adaptação e parando de evoluir.
Medicina preventiva também ajuda nesse aspecto.
Talvez não fossemos o zênite da evolução, mas tenhamos nos tornado tal artificialmente.

Até o próximo cometa, todavia.

Luiz Bento disse...

Na verdade nunca paramos ou pararemos de evoluir. E até a taxa em que isso acontece pode ser bem mais rápida do que achamos. A diferença é que artificialmente controlamos certos fatores que impedem que determinada característica seja preservada em uma população.

Eu com 3 graus de miopia, com certeza, seria o primeiro a ser eliminado em uma floresta, impedindo que meus genes fossem passados. Não só a medicina faz esse controle artificial. O altruísmo não cosanguínio é algo que realmente só acontece em seres humanos. Certemente mantido por pressões sociais e culturais.

Maria Guimarães disse...

bela reflexão, joão carlos, cheia de assuntos.
pois é: por que ninguém esbraveja contra a astrofísica ou a geologia? (suponho que alguém o faça, mas são mais silenciosos...).

recentemente ouvi alguém dizer que a forte reação contra a evolução é em parte culpa do richard dawkins, com sua cruzada antirreligiosa. com isso ele exacerbou uma oposição que não precisa existir. tem evolucionista que acredita em deus e religiosos que aceitam a evolução como ciência.

evoluir para melhor não existe, afinal tudo depende do ambiente. como dirá a rainha vermelha do atila, é preciso sempre correr para não sair do lugar.

somos cheios de defeitos e continuamos a evoluir, como bons seres vivos que somos. temos o letal apêndice, dentes molares que só atrapalham... e surgem defesas contra doenças, pequenas adaptações continuam acontecendo.

ninguém é ápice da evolução, concordo com o igor. mas não resisto a uma provocação: há quem queira batizar a era atual de Antropoceno. porque o impacto do homem neste planeta é maior do que o de qualquer outro agente.

claro que nunca poderia se chamar Galinhoceno porque nenhuma galinha manda na sociedade mundial de geologia, ou sei lá quem decide essas coisas. mas há verdade nesse peso desmedido que temos no mundo...

a evolução é em forma de arbusto e estamos na ponta de um dos inúmeros galhinhos - não é uma escada com o homem no cimo. mas será que o Antropoceno nos torna mais apicais do que os outros?

Marco Antônio Corrêa Varella disse...

Acho que tem dois tipos de incômodos com relação ao legado de Darwin. O primeiro é o incômodo com relação um darwin completamente mal entendido. Smith & Sullivan em The top Ten Myths About Evolution (2007), ao dedicarem um livro inteiro à identificação e resolução de dez mal-entendidos frente à Teoria da Evolução, dedicaram apenas um parágrafo na introdução para levantar as causas desses entendimentos errôneos. As causas do entendimento errôneo acerca do evolucionismo levantada por eles foram quatro: ignorância; ensino inadequado no colégio; erros e limitações da mídia, desde descrições simplistas em filmes de ficção científica até a pobre programação de ciências na televisão aberta {e na net}; e questões religiosas que dificultam a aquisição de conhecimentos científicos.
O segundo incômodo é o verdadeiro, o incômodo fruto do bom entendimento das implicações do Darwinismo. Ele tem raizes filosóficas: aquelas pessoas que ainda não inverteram a pirâmide cósmica(em que a "ordem" origina o "projeto" e do "projeto" vem a "mente" e da "mente" vem "deus" e não o contrário de cima pra baixo)e por conseguinte não são monistas, e aquelas que querem embasar a moral em fatos são as pessoas que vão sofrer mais com o legado de Darwin, o que leva ao desprezo.
Abraços
Marco

Osame disse...

Parar de evoluir, como os tubarões, nao é sinal de perfeição, mas de que eles atingiram um maximo local no landscape de fitness. E máximos locais não são máximos globais...

Agora, somos animais, mas será verdade que somos apenas animais? A memesfera (conjunto de ideias e artefatos) já e maior que a biosfera - em número de artefatos diferentes). Será que o homem não ultrapassou um ponto de transição (com a invenção da cultura) de modo que a explosão de artefatos culturais possa ser comparada com a explosão cambriana?

Nesse sentido, a humanidade não é o ápice da evolução, mas o veículo de uma nova biosfera (a memesfera de Dawkins ou Noosfera de Edgar Morin). Sendo esse veículo, ela abre portas para um novo tipo de replicador evolutivo, um novo tipo de vida (artificial). Ou seja, é a ponta de lança do processo evolutivo (assim como o primeiro animal multicelular foi a ponta de lança de uma nova biosfera).

Não ápice, mas ponta de lança. Mas ser ponta de lança rompe com o principio copernicano (o principio copernicano tambem tem sido rompido com as pesquisas em Astrobiologia, a saber, as teorias de Terra Rara).

Ou seja, nem oito nem oitenta: não somos apices da evoluçao, mas não somos uma espécie mediocre também...