24 setembro, 2008

Tecnologia versus ciência

Não contava adotar esse enfoque, mas uma queixa recorrente no congresso da Sociedade Brasileira de Genética, na semana passada, merece atenção: com toda a tecnologia disponível para a ciência, os cientistas deixaram de pensar. Despejar dados dentro de máquinas sem saber por que e sem saber interpretar o que elas cospem dá origem a erros e descaminhos científicos. Quem diria, a tecnologia atrapalha a ciência.

Leia mais no ciência e idéias.

12 comentários:

João Carlos disse...

É o eterno fascínio que os gadgets exercem... Viu onde cai aquela questão que você me colocou sobre "discernimento"?... Até gente que está recebendo formação para ser pesquisador acaba "picada pela mosca azul" e quer usar tudo de high-tech que puder, por mais inútil que possa ser...

Meus familiares ficaram revoltados comigo, hoje, porque eu nem desconfiava que meu telefone celular era dotado de uma câmera fotográfica... para mim, telefone é algo para falar... e o estritamente necessário e somente em situações específicas.

O que me leva ao velho "bordão": o importante é saber fazer as perguntas.

Vitor Pamplona disse...

Oi Maria,

De fato, a tecnologia atrapalha até a tecnologia. Muitos da computação sofrem do mesmo mal, deixam as perguntas para o final, após muito trabalho desnecessário.

No entanto, talvez o enfoque da crítica seja errado. O que atrapalha não é a tecnologia, mas sim o marketing em cima dela. Aquele marketing que nos faz parecer ultrapassados se não utilizarmos o mais novo dos computadores.

E a vida segue... Parabéns pelo blog de vocês.

Carlos Hotta disse...

Acho que é uma questão de deslumbramento com a tecnologia. Quando algo novo sai, as pessoas ficam empolgadas e querem usar o gadget pelo gadget. Depois de um tempo, passada a novidade, usos mais racionais para o aparato tecnológico acabam aparecendo.

As novas máquinas, que automatizam grande parte das técnica científicas, dão mais tempo para se pensar mas também abrem espaço para se fazer muita coisa sem pensar.

Daí, como toda tecnologia, tudo depende do uso que damos a ela.

Daniel Doro Ferrante disse...

Oi Maria, Pessoal,

Toda vez que leio um texto assim, a unica palavra que me vem aa cabeca eh "silepse" ou entao "metonímia" (incluindo o caso particular da "sinédoque", onde se "troca a 'parte' pelo 'todo'" :-).

Eu explico: quer dizer, entao, que a culpa da "barbagem" (pra nao dizer "burrice") humana eh da tecnologia… que, por sua vez, eh uma criacao humana. Isso me lembra sinedoque nao pelo fato do argumento ser essencialmente circular (e, portanto, virtualmente sem conteudo), mas porque estao usando a "tecnologia" (que eh soh uma *parte* da criatividade humana) ao inves de "humano".

A tecnologia existe pra facilitar a nossa vida: a minha, a vossa, a de todos! Eh a *ignorancia* em aplica-la que causa problemas. Se, ao inves de confiar numa planilhazinha de Excel ou nas suas funcoes implicitas, o fulano em questao tivesse **estudado** estatistica (e, quica, ateh probabilidade!), nada disso causaria problemas. Ou melhor, qual eh a solucao proposta: retornar aa Idade Medieval pra que a tecnologia nao "atrapalhe"?!

Sinto muito… quem atrapalha nao eh a maquina, fria, sem vontade, que soh obedece aos comandos humanos… quem atrapalha eh o homem (ou mulher) que nao estah intelectualmente preparado pra lidar com as novas mudancas do mundo.

Isso, pra mim, tem nome e eh claro: "Impostura Intelectual!" Ponto. Se vc nao sabe o que estah fazendo *dentro* da *sua* propria pesquisa… vc deveria ter outro ramo de atividade… vc nao eh um cientista, um fulano idoneo que busca eliminar e polir todas as fontes de erros pra que seus resultados sejam o mais cristalino possivel.

Agora, fajutisse e gente mal preparada ha em qualquer lugar — tah aih Wall Street que nao me deixa mentir: das 5 maiores instituicoes financeiras, 3 foram literalmente aa bancarrota e quebraram, enquanto outras 2 foram compradas pelo Estado. Alias, a coisa chegou a tal ponto que, se a atual proposta pra "salvar o mercado" for aprovado, sancionado pelo Senado, o que vai acontecer eh que o Estado vai *comprar* o setor financeiro, i.e., eh equivalente a *nacionalizar* o sistema financeiro! (No bastiao do mundo capitalista, acho que vcs entendem o quao forte eh essa afirmacao…)

Portanto, um "cientista" que nao sabe usar as ferramentas que estao a sua disposicao eh um caso analogo ao de um CEO que nao sabe como funciona o mercado financeiro: nos dois casos, eh preciso que alguem interfira para resolver o problema; eh preciso um "agente externo". No caso do mercado financeiro, esse agente eh o Estado… no caso do "cientista", quem eh?!!! As publicacoes "peer-reviewed"?!!!

Culpar a tecnologia eh eximir o homem — agente causador nao soh da tecnologia como do conhecimento cientifico tambem — da *responsabilidade* que lhe cabe: eh o agente da acao que tem que se responsabilizar por ela. Eh como culpar o trator por ter destruido a plantacao… quer dizer que ninguem viu quem estava dirigindo, neh?! :-P

Infelizmente, usar o exemplo do LHC (ou de outros aceleradores de particulas antecessores dele) jah estah se tornando meio cliché, o que eh uma pena, posto que eh um exemplo excelente. O antecessor imediato do LHC, no CERN, foi o respnsavel pela criacao nao soh da Internet, como tambem do WWW — sem ambos, nohs nao estariamos aqui, agora, tendo essa discussao! E essa eh apenas *uma* das influencias tecnologicas do acelerador anterior ao LHC — imaginem soh o potencial que tem o LHC propriamente dito!

O trabalho cientifico, mais do que enobrecer o homem, o *liberta* (dos aspectos ruins da sua condicao humana, e.g., a ignorancia); porem, mal feito, esse trabalho tem o mesmo efeito que todo e qualquer trabalho mal feito: Gera o *dobro* de problemas, pois tem que se limpar o trabalho ruim, e depois tem que se fazer o trabalho bem feito.


[]'s.

Maria Guimarães disse...

exatamente.
sei bem que a tecnologia não tem vontade própria.
agora, que vários pesquisadores estejam preocupados em ver cada vez mais colegas ou alunos acharem que dá para substituir neurônios por equipamentos construídos sem dúvida me bota pra pensar sobre o que está acontecendo conosco...

Daniel Doro Ferrante disse...

Oi Maria,

Eu nao sei se vc conhece as revistas "The New Atlantis" ou "The Atlantic Monthly"… mas, recentemente, dois colunistas (um de cada uma das publicacoes) travaram um debate que, mutatis mutandis, eh bem esse que vc estah levantando aqui.

Entao, vou colocar soh um dos links auqi (uma vez que esse linka praquele):


Is Stupid making us Google?


Agora, que isso aconteca de forma mais generalizada na sociedade, eu ateh entendo… mas, dentro do ambiente academico… aih a coisa tem outro nome, chama Impostura Intelectual!



[]'s!

Isis Nóbile Diniz disse...

"Ele me disse que muitas das descobertas mais importantes saíram de uma boa idéia e um experimento simples, com pouca tecnologia. E é isso que ensina aos alunos: formule a pergunta que quer responder e pense na maneira mais simples de ir atrás da resposta."

Isso serve para todas as "áreas" da vida. Principalmente, a ciência. As pessoas gostam de complicar o que é simples, e não chegam a resultado nenhum.

Nós temos que elaborar a tecnologia para nosso favor, não viver para ela.

Karl disse...

Da "Dialética do Esclarecimento". T. Adorno e M. Horkheimer. Jorge Zahar. 1985, pág 13.

“Não alimentamos dúvida nenhuma de que a liberdade na sociedade é inseparável do pensamento esclarecido. Contudo, acreditamos ter reconhecido com a mesma clareza que o próprio conceito desse pensamento, tanto quanto as formas históricas concretas, as instituições da sociedade com as quais está entrelaçado, contém o germe para a regressão que hoje tem lugar por toda parte.

Se o Esclarecimento não acolhe dentro de si a reflexão sobre esse elemento regressivo, ele está selando seu próprio destino. Abandonando a seus inimigos a reflexão sobre o elemento destrutivo do progresso, o pensamento cegamente pragmatizado perde seu caráter superador e, por isso, também sua relação com a verdade.”

Refletir sobre o elemento destrutivo do progresso não significa primitivizar o presente. Pelo contrário, a reflexão aqui tem como objetivo primordial a libertação do pensamento. (Ou pelo menos, entender os efeitos colaterais de algumas formas de pensar.) Refletir deve ser um desagrilhoar-se e não um ato de nostalgia. A tecnologia é um fato; pode ser um peso ou uma asa.

Osame Kinouchi disse...

Que pena que os filhotes da escola de Frankfurt não leram esse trecho e ficam cantando mantras anticientificos... Ver
http://en.wikipedia.org/wiki/Antiscience

Karl disse...

É verdade, Osame. Frankfurt tem sido mal lida, principalmente entre nós. Mas o "elemento destrutivo" está aí e ninguém pode negar que o mantra "o cientista não pode se pensar" não impõe um certo respeito e convida a reflexões necessárias, não é?

Por falar em respeito, a Wikipedia vem perdendo o seu já há algum tempo...(ver o Idelber http://www.idelberavelar.com/archives/2008/01/por_que_eu_nao_recomendo_a_wikipedia.php)
Abraço

Osame Kinouchi disse...

Putz! Eu sou um dos editores das paginas "Science", "Antiscience" e "Atheism" da wiki inglesa. Sim, tem um monte de lixo lá, mas estou tentando, junto com outros, a melhorar essas páginas... E, reconheço, deveria estar fazendo isso nas paginas em lingua portuguesa. Por que vcs não me ajudam nisso?

Karl disse...

Criticar é sempre mais fácil, né?!! ;)

No que me diz respeito, estou à disposição para dar algum palpite. Obrigado pelo convite.