29 julho, 2007

Quem tem medo do Oscar?

A conceituadíssima revista The New England Journal of Medicine publicou na semana passada o artigo intitulado "A Day in the Life of Oscar the Cat" (por David M Dosa) onde é relatado, de modo curioso, e até mesmo fantasioso, o dom 'paranormal' do gato Oscar de prever quais pacientes vão morrer.
Os editores podem ter decidido publicar o artigo de brincadeira, ou por entenderem que lidar com pacientes terminais não é, certamente, tarefa fácil e essa era uma forma criativa de dizer isso.

Mas a forma como a imprensa tratou o caso é que me preocupou: "Gato 'prevê a morte' de idosos em clínica nos EUA" disse a Folha de São Paulo. "Médico afirma que gato pode prever a morte de idosos em clínica nos EUA" está estampado no site da UOL.

Leia mais em Você que é Biólogo...

10 comentários:

João Carlos disse...

Bom... Eu acho que você acaba de comprar uma briga com o Daniel que é da Brown...

Provavelmente, você está certo em querer testar as habilidades de psicopompo do Oscar, em outras alas do hospital. Mas que tal testar antes de afirmar algo?

Essa aparente paranormalidade de animais domésticos não é novidade alguma. Só que nem todas as "crendices populares" são só "crendices". Na verdade, a maioria não é! Só que não encontram um investigador isento para estudá-las: ou é um místico distorcendo os dados para "provar cientificamente" sua crença, ou é um cético impedernido que quer provar, até negando os fatos observados, que sua descrença é certa.

Depois, os divulgadores de ciência se queixam de que as pessoas preferem o sensacionalismo da mídia. Basta aparecer uma curiosidade - digna, aliás, de uma investigação mais cuidadosa, justamente porque envolve um assunto de interesse de gente "simples" - e os nossos caros divulgadores descartam a "crendice"...

Você diz: No entanto, não podemos, em nenhum momento, deixar que a sensibilidade da história de Oscar confunda uma curiosidade com um fato científico.

Ok!... Que tal investigar essa "curiosidade"? Eu vivo me lembrando de Voltaire, os turcos e a varíola...

Mauro Rebelo disse...

João, eu não sei se concordo inteiramente quando você diz que a maior parte das crendices populares são verdadeiras. Especialmente no que diz respeito a sexto sentido, de quem quer que seja.

Acredito que muita coisa que foi crendice ontem é verdade científica hoje, mas o Carl Sagan tem um livro sensacional, chamado "O mundo assombrado pelos demônios" onde várias desses crendices, mas especialmente charlatanismos, são desmistificados cientificamente.

Fazer ciência está cada vez mais difícil, especialmente no Brasil, e muitas vezes usamos nossa determinação em detrimento do método científico. Muitas vezes funciona, mas muitas outras não. Isso é um problema e temos que ficar atentos.

Eu não conheço o artigo do Voltaire, mas acho que nesse caso, os médicos franceses vacilaram não ao ignorar uma crendice (de levar as crianças aos doentes sobreviventes), mas ao ignorar um fato (provavelmente por preconceito): a maior imunidade dos turcos à varíola!

E 'seleção de observação' é, na minha opinião, o pior dos pecados do cientista.

João Carlos disse...

Certo, Mauro. Mas eu não estava falando de "sexto sentido"; estava falando de uma habilidade maior de um dos cinco conhecidos.

Um artigo do Caio de Gaia (que eu não consegui localizar) revela que os pombos se guiam pelo olfato!... Nada a ver com "campos magnéticos da Terra", nem outras hipóteses mais "imaginativas" ainda...

Eu mesmo tive um Cocker Spaniel que "embirrava" com pessoas com arritmia cerebral. Sei lá por que?... Mas quatro casos em quatro, para um cão meigo e dócil, há de ter algum significado.

Pode ser que o Oscar realmente sinta algum cheiro, ou aspecto corporal que nos escapa (a visão dos gatos também é bem diferente da nossa).

Como eu disse - agora que o assunto entrou na berlinda - seria bom fazer o que você propôs: mandar o Oscar para outras enfermarias e ver se ele acertava, também.

João Carlos disse...

Sobre o Voltaire: ele descreve o hábito das turcas em levar seus filhos às casas dos variólicos em recuperação e esfregá-los em suas feridas secas (e a recusa dos médicos franceses em se interessar por este procedimento de um "povo báraro", mas com uma grande imunidade à varíola). Mas isso foi muito antes de Pasteur descobrir os microorganismos...

Miriam Salles disse...

Olá!
Indiquei o esse blog para o prêmio “Blog com Tomates”. Espero que vocês aceitem a indicação. As informações estão no meu blog!
Um abraço

Silvia Cléa disse...

Oi, Miriam!

Legal pela indicação! Estamos todos gratos, valeu. ;o)
Oi, João!

Sabe o que esta história do seu cão não gostar de epilépticos me lembrou? Talvez ele não goste é do cheiro dos medicamentos que eles utilizam...muito provavelmente seja o mesmo. Eu tenho um olfato super-sensível e sinto tb o cheiro deles, bem como de alguns outros...
Há medicamentos que, qdo chegam ao estômago e suas cápsulas são quebradas pelo suco gástrico, liberando o composto (o tal pó), que, se vc estiver por perto, o hálito é mais do que característico! Na certa pode ter sido isso o que seu cão percebeu...
Quanto ao tal gato do hospital, há hipótese, ou esclarecimentos quanto ao uso de cobertores nos momentos finais (vamos chamar assim) e que ele estaria atrás de aquecimento. Caso não fosse isso, poder-se-ia buscar quaisquer outras atitudes padrão e somente utilizadas nessas circunstâncias. Incluem-se tb, além dos tais cobertores, algum medicamento ou mesmo produto de limpeza, refeição (enfim, qualquer padrão).
É como o Mauro disse, deve-se fazer um trabalho cuidadoso e científico, antes de propagar qualquer 'notícia' por aí, só para vender jornal!

Maria Guimarães disse...

e os ratos que farejam ruberculose? http://cienciaeideias.blogspot.com/2007/02/farejadores-de-perigo.html

desculpem ser tacanha, mas vou ter que cumprir minha função (que não é só minha, companheiros de roda!) de guardiã da ordem...

o que isto tem a ver com o tema do mês???

João Carlos disse...

Hmmm... Bancando o "advogado auto-nomeado", eu acredito que o Mauro associou idéias sobre como é difícil ensinar biologia séria a alunos que se vêem bombardeados por manchetes bombásticas da mídia.

Mauro Rebelo disse...

Ih! Na verdade, não tem a ver com o tema do mês não. Mas achei que era um bom tema de discussão em uma "Roda de Ciência". Foi coisa de principiante. Na próxima me atenho ao tema!

Maria Guimarães disse...

odeio fazer papel de chata... o problema é que tem muito assunto que é bom tema de discussão, mas se entrarmos em tudo isto vira uma confusão total.
discussões externas ao tema cabem melhor em nossos próprios blogues.