21 junho, 2007

invadir é a regra?

viagene volta num post-relâmpago para uma nota sobre a atual crise nas universidades paulistas, onde manifestações diferentes com motivações diferentes têm criado um certo caos de comunicação e alimentam polêmicas sobre a legitimidade de invasões, greves, notas de repúdio, etc... fica-se com a impressão de que DIÁLOGO é coisa ultrapassada - avançado mesmo é INVADIR! Leia mais aqui.

15 comentários:

Maria Guimarães disse...

fiquei um pouco confusa - invasões e festas me parecem assuntos bem distintos!
como das festas não sei nada, não posso comentar.
das invasões sei pouco, e gostaria de saber mais. até onde sei, elas não são um fim em si. são uma forma de exigir diálogo, num momento em que pedir por ele não surtiu efeito algum.
claro que há abusos, claro que há grupos com posições políticas extremadas que dificultam qualquer diálogo. parte da imaturidade que transparece nas críticas vem, pasmem, de grande parte desses universitários protestadores terem 18, 20 anos. pois que protestem, e usem o treino para protestar contra outros desajustes do nosso país - contra os quais os mais velhos infelizmente já desistiram de lutar. tristemente me incluo na massa inerte.
me parece que aqueles que criticam as greves na maior parte das vezes não foram conferir seus motivos. não foram ver as condições de trabalho nas faculdades cujos integrantes mais protestam. não participaram de tentativas fracassadas de diálogos.
isso dito, deve haver melhor forma de se atingir os fins do que as rebeliões que agora brotam pelo brasil afora. não sei qual é, quem souber por favor mostre!

via gene disse...

Olá Maria!

Obrigada pelo comentário. A questão das festas é que o professor sugere que festas "regadas à álcool" não deveriam estar associadas à estrutura institucional. Como este comentário está embutido no artigo mais geral sobre a questão das invasões, acabei comentando sobre este aspecto específico - com o qual não concordo totalmente.

Quanto às invasões: mobilizar alunos em universidades, de forma ampla, com representações legítimas, é tarefa hérculea que merece apoio e reconhecimento. Mas... não parece ser tão organizado e representativo o movimento que vejo na unicamp... ontem havia próximo da biologia um cartaz onde se lia: "alunos da unicamp não apoiam a invasão"... enquanto o DAC (diretório acadêmico) permanecia invadido... qual a coerência? Quem (?) são "os alunos da Unicamp"? Não vejo esforço em buscar o diálogo, não vejo oportunidade (fóruns) para discussões amplas e integradas entre as diferentes faculdades e institutos, enfim, não vejo esforço dos alunos (nem de outras categorias) em se reconhecer como um grupo com interesses em comum pelos quais vale a pena lutar junto... queria ver, mas não vejo...

talvez eu não esteja olhando para o lado certo, vou tentar outros ângulos, quem sabe... aí te aviso!

beijos,

ana claudia

Kynismós! disse...

Ana, você tem toda razão em suas colocações.

Veja isso: http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2007/06/24/invasores_da_usp_empilharam_computadores_na_reitoria_838801.html

Sou um cara libertário ao extremo, mas incapaz de fazer uma arruaça com depredação, até invadiria um prédio público, mas seria incapaz de destruir o patrimônio público (pois como o nome diz é PÚBLICO).
Esses estudantes não passam de arruaçeiros, assim como a maioria dos estudantes que participam de grêmios, DA´s, DCE´s, UNE, etc., a coisa que esse pessoal menos faz é estudar.

Maria Guimarães disse...

acho tudo isso muito triste.
o que falta?
se a justificativa é obter diálogo mas não há esforço para isso, o que pode ser feito? quem quer melhorias? o que essas pessoas estão fazendo?
sou só perguntas.
na verdade entrei aqui hoje para mencionar um artigo, das raras vozes com que concordo: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=48178

Kynismós! disse...

Essa camarada só fez um joguinho de palavras e nada mais.

Cesar Louis Kiraly disse...

Acho que estamos habituados a uma forma bastante burguesa de participação política. Dizer que uma forma de ação é burguesa já está bastante forma de moda, mas chamar de "careta", "quadradona", ou qualquer outra denominação pouco elogiosa não nos ajuda muito. Então se alguém tiver alguma sugestão para substituir o “burguesa”, por favor, me ajude. Mas o fato é que penso que estamos habituados a formas de participação burguesa e temos horror do mostro acéfalo que são as multidões. De maneira geral achamos que ajudar é pegar numa vassoura, escrever um manifesto, montar um pré-vestibular comunitário ou uma campanha do agasalho. Concordo muito com essas formas de participação, mas penso que a vida universitária brasileira encontrou, junto com os sem teto de São Paulo, uma forma de participação política muito eficaz, a manifestação que demonstra um estado de insuportabilidade. Os estudantes de São Paulo, com outros estudantes de outras partes do Brasil, frente ao regime de insuportabilidade frente à falta de seriedade na condução da vida universitária brasileira, simplesmente, invadiram a reitoria, festejaram a invasão, destruíram algumas cadeiras, disseram não. Poderiam ter pegado em vassouras, limpado o chão da reitoria, feito voto de silêncio ou fome, poderiam ter morrido para chocar a sociedade brasileira, cantar o hino nacional com lágrimas nos olhos etc. Mas optaram por festejar, gritar e incomodar. Manifestações próprias àquilo que nos é insuportável. Por certo que existem limites para as que possamos jogar as regras do jogo. Limites pacíficos, limites que nos impeçam de nos envergonhar frente a nossa posteridade, ou coisa que o valha, mas esse Maio festivo passou do limite? A vida política no Brasil passou do limite. Penso que o insuportável ainda falou bem baixo com as cadeiras quebradas e as cervejas bebidas.

Kynismós! disse...

Quebrar o patrimônio público para se tornar a gastar dinheiro público na restauração ou reposição desse patrimônio não me parece muito inteligente.

Querem quebrar? Ué, vão quebrar a casa do Serra, tocar fogo no seu carro, etc.

Rogério Silva disse...

Não me parece muito inteligente também a dilapidação do patrimônio publico que os políticos eleitos por todos nós fazem com a nossa anuência e o nosso silêncio e sem que isso represente nenhuma reivindição em contrapartida.
Se estivéssemos aqui tratando da reintegração de posse de algum terreno, de uma invasão de um barraco ou favela, estaríamos todos dizendo que era triste, lamentável mas, em nome do estado de direito, no sentido de preservar o direito à propriedade, isso seria um mal necessário e pouco importaria o que tivessem feito.
Em se tratando de estudantes universitários, o que pesa mais, o seu ato “insuportável”?
Não se pode fazer omelete sem quebrar os ovos quando se trata de totalitarismo e intolerância.

Maria Guimarães disse...

cesar, aqui concordamos. bem dito.

Cesar Louis Kiraly disse...

Maria. Acho que lá concordamos também. Contudo, vejo um problema com determinadas palavras cujo conteúdo é historicamente marcado. Penso que os cientistas não precisam do nome "Raça" para explicar o que querem. Pense na noção de "Raça" judaica. Imagino que a ciência não concorda que possamos classificar o judaísmo como uma raça. Mas existe um argumento científico, caro ao século XX, que determina o conceito. Acho que o conceito de Raça é parte de uma estratégia discursiva que por vezes a ciência não se dá conta. De maneira que o conteúdo prescritivo da palavra "Raça" é muito diferente da palavra "Mulher". Onde o gênero é determinante de uma estratégia política bastante libertária. Você pode me dizer que na "Raça" também existe uma estratégia política. Mas aos meus olhos essa estratégia repõe o argumento da segregação. Não estou dizendo que determinadas cores não sejam prejudicadas na história do mundo. Mas acho que a estratégia deve ser "cromática" (bricandeira) e não "racista" (mais uma brincadeira).

Um abraço

Cesar Louis Kiraly disse...

Rogério,

eu acho que seu raciocínio é coerente. Seria como dizer, posto que é o meu dinheiro que compra as cadeiras da Universidade, que é burrice eu achar que os estudantes podem quebrar as cadeiras. Seria como se eu, a propósito de protestar contra minha mulher, colocasse-me a botar fogo em meus livros. Mas não acho que esse evento político, e é disso que se trata, um evento político, trate propriamente de quebrar cadeiras, da mesma forma como a queima de carros, pelos árabes, nas periferias de Paris, não concerne propriamente à preservação ou destruição do patrimônio. Não pense que estou querendo dizer que as regras do jogo não valem ou que devemos estimular que o congresso nacional seja queimado. Também não acredito em quebrar ovos para fazer omeletes ou na dialética do meio e dos fins. Mas acredito que a semiótica do Maio Festivo seja significativa para expressar um sentimento de insuportabilidade. De certa maneira, a despeito do que a imprensa brasileira tenta fazer passar, a manifestação do Maio Festivo cria barreiras a determinados rumos que provavelmente a Universidade brasileira tomará se nada for feito. Entre cadeiras queimadas e latas de cervejas bebidas e a anulação da capacidade de pesquisas independente no Brasil, prefiro que as cadeiras ardam e as cervejas gelem.

Um abraço

Cesar Louis Kiraly disse...

Rogério,

no meu blog de política coloco um link para um artigo do Cícero de Araújo que concorda muitíssimo com a sua tese. Lá ele diz que não podemos denominar as invasões de desobediência civil. E traça uma série de justificativas para isso.

Um abraço.

João Carlos disse...

Fica uma série de perguntas:

1 - O quanto reivindicações legítimas não estão sendo misturadas a politicagem?

2 - Por que será que a grande maioria dos "protestantes" era da área de "Humanas"?

3 - Desde quando prestar contas dos gastos feitos por uma Universidade, "fere a autonomia"?... No meu entender, só fere a autonomia de quem quer gastar mal (para não falar "malversar") e não quer ser criticado. E, mesmo que fosse, o que o corpo discente tem a ver com isso? (A menos que os DA estejam sendo financiados...)

Em suma: está tudo muito mal explicado!...

Maria Guimarães disse...

joão carlos,
não sei responder a tuas perguntas, mas deixo algumas considerações:
1- cuidado para não confundir política com politicagem. consciência política é louvável.
2- porque são menos alienados e, sobretudo, porque não são vistos como prioridade na universidade e têm condições pífias de estudo e de trabalho.
3- até onde sei, que não é muito, prestar contas não fere a autonomia - mas aumenta a burocracia de forma talvez insustentável. o que fere a autonomia é que exista a possibilidade de que o uso lícito de recursos seja manipulado pelo governo de forma arbitrária. talvez, como muitos disseram, não seja a intenção do serra fazer isso. mais talvez o próximo governador tenha visões diferentes acerca dos recursos para universidades e teria ferramentas legais para interferir.
por fim, é mesmo triste que o corpo discente tenha se mexido primeiro. só consigo imaginar que isso aconteceu porque ainda são jovens e menos desiludidos.

Maria Guimarães disse...

cesar, por que você não entra como participante oficial do roda?