12 janeiro, 2008

A day in the life

Ainda não tenho um papel que me dá o direito de colocar um ", Ph.D." depois do meu nome mas a rotina de estudante de pós-graduação é algo que, apesar de diferente da de um professor ou pesquisador, contém muitas coisas em comum. Então como um contra-ponto ao post do Osame acenando lá do meio da escada fica aqui a rotina de alguém que ainda está ensaiando subir os primeiros degraus.

10 comentários:

Maria Guimarães disse...

shridhar, que bom é não ter chegado ao ponto de, depois da cerveja, perguntar "por que mesmo que tenho que escrever essa tese?".
será que todo mundo passa por isso? acho que não.
aprendiz, sim. mas aprendiz de artesão?

OK disse...

Acho que precisamos definir artesão, se queremos discutir a analogia do cientista como artesão de ideias e prototipos.
Da Wikipedia:
According to Classical economics theory, the division of labor occurs with internal market development (Adam Smith). However, according to economist John Hicks, merchants and artisans originated as servants to the rulers, which occurred much earlier. Artisans employ creative thinking and manual dexterity to produce their goods.

OK disse...

Ainda dando uma de Krishna: A master craftsman (sometimes called only master or grandmaster) was a member of a guild. In the European guild system, only master craftsmen were allowed to be members of the guild.

An aspiring master would have to pass through the career chain from apprentice to journeyman before he could be elected to become a master craftsman. He would then have to produce a sum of money and a masterpiece before he could actually join the guild. If the masterpiece was not accepted by the masters, he was not allowed to join the guild, possibly remaining a journeyman for the rest of his life. Becoming a master was often very hard.

In many guilds, the master craftsman had strict obligations, one of which was to take on an apprentice (or several depending on the craft) to ensure the survival of the guild. Without apprentices, there would be no one left to continue the craft.

United States
While guilds as such do not exist, many trades continue the apprentice-journeyman-master model. Electricians, pipefitters and plumbers are notable examples. Even in academia, the tradition survives, with PhD students as apprentices, post-docs as journeymen and professors as masters. [1] [2] [3]

The paper which needs to be presented in order to get an academic degree, proving the student's proficiency in the chosen subject and whose quality is examined by existing lecturers, is in effect a form of the medieval masterpiece which needed to be prepared by anyone seeking to be accepted as a master in any professional guild.

Shridhar Jayanthi disse...

Bom Maria, eu ainda não estou nem perto de olhar pra uma tese. Mas eu acho que se eu chegar num ponto onde eu não tenho uma resposta boa pra pergunta "por que eu estou fazendo esta tese?" eu largo o programa e vou trabalhar, até porque doutorado não aumenta o salário. Tese, tarefas, qualificações, são tudo um saco mas são partes do processo de ascenção na "guilda" acadêmica, definida pelo Osame.

E aí em cima já vem o endosso à idéia do aprendiz de artesão. Não é visão romântica da academia por parte do Osame, mas a visão romântica dos artesãos que é um equívoco. Nas guildas, artesãos trabalhavam por muito tempo com mestres para aprender o ofício, já produzindo durante o processo, mas tendo que se submeter aos métodos de seu "orientador". Acredito (mas não tenho nenhuma fonte) que até o sistema acadêmico moderno, decorrente da idade média, se formou no mesmo sistema das guildas, com aprendizes e mestres.

Outro aspecto artesanal da ciência vem do fato de que não existe uma forma sistemática de progresso na ciência (existe de progresso na academia, mas é possível ser um burocrata acadêmico e professor titular). Repetir o que tem sido feito só pode atingir um nível, ultrapassável somente pela criação de novos métodos. Não há uma "linha de montagem" de idéias.

OK disse...

Seria interessante verificar como surgiu o sistema de pos-graduacao em termos historicos. Talvez o titulo de mestre venha das guildas de artesaos, e o philosophical doctor PhD da carreira eclesiastica nas universidades medievais. Ou seja, o sistema atual descende da conjuncao do sistema academico medieval com o sistema de guildas. Achei interessante o comentario da Wikipedia de que o aprendiz precisava produzir uma Masterpiece para ser aprovado. Vc já imaginou que sua tese deveria ser sua masterpiece, no sentido de obra de arte a ser examinada e aprovada pelos seus futuros pares? Sim, eu sei que dissertacoes e teses se banalizaram (bom, mas esta banalizacao provavelmente ocorria tambem nas guildas medievais - nem todo aprendiz era vocacionado pra artesao). Mas precisamos enfatizar isso: a universidade, especialmente a universidade publica, é um enclave medieval que resiste à logica do capitalismo (Universidade = fábrica de diplomas ou de profissionais em série). Se isso é bom ou ruim, só o tempo dirá. Certamente as duas maiores universidades brasileiras (UNIP e ULBRA, USP ficou em terceiro agora) não dao bom exemplo no que tange a pesquisa e formacao de artesaos-cientistas criativos). Soube que a ULBRA, apenas no ultimo ano, conseguiu 60.000 novos alunos para os seus cursos de ensino a distancia (que cobram uma media de R$ 300,00). Já calcularam quanto de capital é isso? E voces tem ideia da qualidade desses cursos? Eu tenho, pois sou amigo de uma tutora da ULBRA...

OK disse...

Maria, fica aqui a ideia para mais um tema de debate: "ensino a distancia no Brasil".

Shridhar Jayanthi disse...

Vale destacar que tanto a palavra Mestre quanto a palavra doutor significam a mesma coisa: professor.

Também é interessante que existe o conceito de "Doutor da Igreja" (Doctor Ecclesiae) que era um título dado pelo Vaticano para filósofos que mudaram a teologia significativamente e esse título foi criado no século XIII. Vale lembrar também que o título de Doutor em Filosofia (PhD), agora adotado pela maioria das escolas não era unanimidade. Há não muito tempo, haviam títulos com o DSc para doutor em Ciências. A história que ouvi certa vez é que o D.Sc. era pra quem faziam um trabalha extremamente importante nas ciências e que o PhD era pra quem apresentava algo que era maior do que só a ciência, pois a filosofia abrange muito mais do que o que é científico: artes, teologia, metafísica...

Aí vai minha hipótese: o sistema de mestres surgiu nas guildas e o sistema de doutores surgiu nas igrejas. À medida que as universidades, inicialmente focadas na teologia, foram adotando pessoas de outras áreas os "práticos" passaram a trazer pra dentro da escola os conceitos de "mestre" e de "obra-prima" e o modo do aprendiz enquanto que as universidades tinham o sistema de "cátedras" e "doutores". A hierarquia se estabeleceu devido à tradição de Deus (teologia) vir antes dos homens (ciências naturais). O cartesianismo acabou por diminuir essa hierarquia e por rearranjar a ordem. Foi provavelmente nesta época que se criou os doutores de ciência, filosofia e teologia que existem hoje, os primeiros cada vez mais raros porque infelizmente (ou felizmente?) a ciência detém monopólio virtual na academia moderna.

O que eu sei é que na Universidade de Michigan, tem 6 títulos de doutorado acadêmicos e 4 honorários possíveis. Os profissionais são DDS (Doctor of Dental Surgery), JD (Juris Doctor, direito), MD (Doctor of Medicine), PharmD (Farmacologia). Dos acadêmicos temos SJD (Science of Law, o "PhD" do direito), DrPH (Saúde Pública), PhD, AMusD (música). E os honorários são Doctor of Laws, Doctor of Engineering, Doctor of Arts and Letters, Doctor of Humane Letters.

OK disse...

Encontrei este documento interessante sobre a historia do doutorado e novas propostas para o mesmo: http://www.uky.edu/ETD/ETD2004/libner/Libner-Morgan-ETD2004.pdf

Mas ainda seria interessante ter fontes historicas sobre o mesmo. Segundo a Wikipedia inglesa, o Doctor of Philosophy era dado para profissionais fora das areas tradicionais de Teologia, Medicina e Direito, por exemplo, Natural Philosophy (ciencias). Ou seja, o PhD nao eh uma evolucao do titulo de Doutor em Teologia, mas sim uma classe a parte. Segundo a mesma fonte, doutor significava, em latim, "professor de professores". Ja o titulo de mestre realmente parece vir das guildas, ou será que não? Devemos lembrar o titulo Master of Arts. Acho que havia uma grande separacao entre artistas e artesaos, que trabalhavam com as maos (e portanto seriam uma classe subalterna para servico da nobreza) e a classe dos doutores (por exemplo, doutor da Igreja) onde um nobre poderia fazer carreira. Ou seja, será que a distinção entre doutor e mestre vem de carreiras acessiveis a nobres e plebeus?

João Carlos disse...

Osame, você pesquisou também na Wiki "Doutorado"?("Doctorate" ...) Lá você encontra o link para o grau ainda superior: "Habilitation" que se traduz, em português do Brasil, por "Livre Docente" (segundo a página, um grau ainda mantido por algumas Universidades Públicas do Estado de São Paulo).

O título "Mestre" parece vir da mesma origem de "Mago" = "Pessoa de (altos) conhecimentos" e é livremente aplicada em diversos contextos diferentes, tais como Mestre-Artesão ou Mestre de um Navio (a Marinha ainda usa o termo Contramestre para o quase-mestre).

Já o título "Doutor" parece ter a mesma origem de "Duque" ("Dux"), meio que traduzível para o "-gogo" dos gregos = "aquele que conduz".

Então, me parece que você está no caminho certo quando relaciona o título de "Mestre" (com conotação inferior a "Doutor") a profissões acessíveis aos plebeus.

OK disse...

Espero que a discussao nao tenha descambado, embora o topico seja interessante (mas poderia ser um topico pra outro mes, sobre a questao da pos-graduacao no Brasil). Quem mais vai falar sobre seu dia a dia? Joao Alexandrino, Lucia Malla, Daniel Ferrante, e outros, temos varios pesquisadores na ativa aqui. No meu caso, acho que estou mais para tecnico (orientador) do que pra jogador...